Comentando texto de LACAN

 



Questões presentes no texto O seminário, livro 5 de Lacan


Não existe objeto a não ser metonímico - esta é a tese mais importante deste texto, portanto, é preciso anotar bem 

O objeto do desejo = objeto do desejo - Outro – simbólico – objeto a = aquilo que está sempre em falta


Não há sentido puro senão metafórico =>  sentido = significantes substituindo outros, numa cadeia infinita de significantes que estrutura o sujeito no universo simbólico no qual ele é falante e falado.


Na instância simbólica dois processos são fundamentais:


a (F1) função metonímica e
a (F2) função metafórica


F1 (S....S') S'' = S (-) s
F2 (S') S'' = S (+) S
S = sujeito do "inconsciente"


F1 leva a uma cadeia de significantes que fica no nível da significação;


F2 leva a uma relação de deslizamento substitutivo, na qual aparece a criação do sentido.


Sobre o Outro da linguagem que confere fundamento do sujeito que emerge na fala indidivual, o Outro (Autre em francês) detém o código da linguagem por meio do qual o eu (je) pode se expressar, ainda que de forma precária, abaixo há trechos do texto:


Decerto é preciso que o código esteja em algum lugar, para que possa haver audição do discurso. Esse código está, muito evidentemente, no grande Outro (A), isto é, no Outro como companheiro de linguagem. É absolutamente indispensável que esse Outro exista, e, rogo-lhes que o observem, não há necessidade de chamá-lo por esse nome imbecil e delirante de consciência coletiva. Um Outro é um Outro. Basta apenas um para que uma língua seja viva.” (p.20)


O que é o desejo? O desejo é definido por uma defasagem essencial em relação a tudo o que é, pura e simplesmente, da ordem da direção imaginária da necessidade – necessidade que a demanada introduz numa ordem outra, a ordem simbólica, como tudo o que ela pode introduzir aqui de perturbação.” (p. 96)


que só é espirituoso aquilo que eu reconheço como tal. E o que chamo de irredutível. O sujeito, aí, é realmente aquele que fala, diz Freud. Por outro lado, ele destaca que, tão logo possuo alguma coisa que é da ordem do espirituoso, só tenho uma pressa, que é colocá-la a prova pelo Outro – mais ainda, de lhe transmitir seu contexto. Essa chega até ser a condição de que eu possa colher plenamente o prazer disso.” (p. 108)

O cógito cartesiano não é experimentado na consciência de cada um como um de nós, efetivamente, como um penso, logo existo, mas como um sou como penso, o que naturalmente pressupõe, por trás, um penso como respiro […] No final das contas, eis-nos de novo confrontados com o seguinte: em nós há um sujeito que pensa. E pensa de acordo com leis que mostram ser as mesmas da organização da cadeia significante. Esse significante em ação chama-se, em nós, inconsciente. É designado como tal por Freud.” (p.112)


julgo fundamental para compreender o que há em Freud; assinalar a importância da linguagem e da fala. Isso nós dissemos desde o início, porém, quanto mais nos aproximamos do nosso desejo, mais nos apercebemos da importância do significante na economia do desejo, digamos, na formção e na informação do significado.” (p.150)


Aqui chamamos de lei aquilo que se articula propriamente no nível do significante, ou seja, o texto da lei. Não é a mesma coisa dizer que uma pessoa deve estar presente para sustentar a autenticidade da fala e dizer que há alguma coisa que autoriza o texto da lei; com efeito, o que autoriza o texto da lei se basta por estar, ele mesmo, no nível do significante. Trata-se do que chamo de Nome-do-Pai, isto é, o pai simbólico. Esse, é um termo que subsiste no nível do significante, que, no Outro como sede da lei, representa o Outro. É o significante que dá esteio à lei, que promunga a lei. Esse é o Outro no Outro.” (p.152)


Pode haver, na cadeia dos significantes, um significante ou uma letra que falta, que sempre falta na tipografia. O espaço do significante, o espaço do inconsciente, é realmente um espaço tipográfico, que é preciso tratar de definir como se constituindo de acordo com linhas e pequenos quadrados, e correspondendo a leis topológicas. Pode faltar alguma coisa numa cadeia dos significantes.” (p. 153)


O desejo cruza a linha significante e, no nível de seu cruzamento com a linha significante, encontra o quê? Encontra o Outro. Veremos dentro em pouco, já que será preciso voltar a isso, o que é o Outro, nesse esquema. Ele encontra o Outro, disse-lhe eu, não como uma pessoa, mas o encontra como tesouro do significante, como sede do código. É aí que se produz a refração do desejo pelo significante.” (p. 154)


Digo exatamente: o pai é um significante que substitui outro significante. Nisto está o pilar, o pilar essencial, o pilar único da intervenção do pai no complexo de Édipo. E, não sendo nesse nível que vocês procuram as carências paternas, não irão encontrá-las em nenhum outro lugar. A função do pai no complexo de Édipo é ser um significante que substitui o primeiro significante introduzido no simbólico, o significante materno.” (p. 180)


Eu gostaria, para terminar, de chamar sua atenção para as diversas manifestações da presença da Outra coisa no que elas são institucionalizadas. Voces podem classificar as formações humanas instaladas pelos homens onde quer que eles vão, e por toda parte – as chamadas formações coletivas – em função da satisfação que elas dão aos diferentes modos da relaçao com a Outra coisa.” (p. 183)


A posição do pai como simbólico não depende do fato de as pessoas haverem mais ou menos reconhecido a necessidade de uma sequência de acontecimentos tão diferentes quanto o coito e um parto. A posição do Nome-do-Pai como tal, a qualidade do pai como procriador, é uma questão que se situa no nível simbólico. Pode materializar-se sob formas culturais, mas não depende como tal da forma cultural, é uma necessidade da cadeia significante.” (p. 187)


Referência:

LACAN, Jacques. [1901-1981]. O seminário, livro 5: as formações do inconsciente (1957-1958). tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

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