LINGUAGEM DAS MÁQUINAS COGNITIVAS: IA E A INTELIGÊNCIA HUMANA

 


APRESENTAÇÃO

O pensamento filosófico e científico moderno tem apresentado inúmeras possibilidades de tecnologias. Ao tentar compreender as estruturas mentais humanas logo nos deparamos com as perguntas mais antigas da filosofia e somadas a estas se tem as novas modalidades tecnológicas que abrigam em si processos que simulam a cognição humana em várias de suas funcionalidades.

Pode-se dizer que as tecnologias de informação multiplicam ao se nutrirem dos aspectos próprios do psiquismo humano, ideias tais como memória eletrônica e processos de inteligência artificial são alguns dos mecanismos que demonstram como a cognição humana já vem sendo amalgamada a complexos instrumentos de automatização. O automatismo e seu uso em larga escala no cotidiano humano é algo típico no desenvolvimento das sociedades modernas, contudo, ao construir um mundo baseado no automatismo o homem depara-se com um tipo de angústia que recai em seus estados mentais. Exige-se cada vez mais prontidão do homem que agora tem seus próprios processos cognitivos sendo operados em função de máquinas. O foco deste blog é elaborar e aplicar um modelo de pesquisa online que mostre o uso da linguagem científica em suas elaborações técnicas. Somente por meio do uso dos símbolos cognitivos seremos capazes de manter a inteligência humana sã, apesar do automatismo das máquinas que inevitavelmente temos de usar online.


OBJETIVOS

Objetivo Geral:

  • Analisar obras filosóficas e científicas que tratam dos aspectos da cognição e do uso da razão enquanto realidade teleológica [teleologia é a ciencia da finalidade] da condição humana;


Objetivos Específicos:

  • Analisar a angústia como fator mobilizador da elaboração filosófica contemporânea;

  • Compreender os limites da comunicação por meio de máquinas para a vida mental humana;

  • Analisar o uso da racionalidade frente a mobilização de forças mecânicas como simulacros do pensamento.


PESQUISA ONLINE: COMO USO A INTERNET?

Como a linguagem dos processos mentais está sendo traduzida em linguagem técnica de máquinas cognitivas? A partir desta pergunta procurei inscrever este blog no grande universo pensante online, minha análise é hermenêutica (ou seja INTEREPRETATIVA), toma como principal referência Heidegger [O HOMEM QUE VENCEU O NAZISMO PENSANDO SOBRE O SI MESMO DAS COISAS]. Meu tema principal aqui será a filosofia e a técnica científica moderna.

A partir das questões expostas acima tenho como hipótese principal que a técnica científica moderna vem ganhando um tal grau de objetividade que os processos mentais são traduzidos em termos de automatismos, tal automatismo do ponto de vista filosófico enseja um tipo de angústia hermenêutica pois ao 'tercerizar' funções mentais e manipular a própria vida em função destas máquinas cognitivas o ser humano já não consegue responder a questões teleológicas antigas, tão antigas quanto a própria elaboração filosófica. A angústia hermenêutica se traduz em uma incapacidade para perceber a técnica moderna enquanto elaboração simbólica do próprio ser pensante e, assim o que deveria ser o sujeito do pensamento torna-se operador de pensamentos ou processos automatizados.  

JUSTIFICATIVA

O uso crescente de máquinas de comunicação de massa que agregam em si diversas funcionalidades tem gerado um ambiente cultural desafiador para pesquisadores e cientistas. As mesmas ferramentas que refletem avanços tecnológicos também são ferramentas de controle ou manipulação de pensamentos, crenças e valores. Tem-se assim um cenário onde a linguagem humana está se tornando rápida ao ponto de ser descartável.

As mudanças na forma de comunicação impactam amplos setores da vida social e neste sentido o objetivo desta proposta é compreender as implicações filosóficas em torno da confluência de linguagem de máquinas e linguagens humanas. A linguagem operada pelas máquinas é parte essencial da linguagem dos homens, porém ela o é no campo simbólico da técnica científica moderna. Muitos são os que usam as máquinas cognitivas, mas poucos são os que percebem o lugar humano delas, geralmente são vistas como objetos “mágicos” que escondem um fetichismo segundo o qual todos os pensamentos e cognição humana podem facilmente ser traduzidos e comunicados. Compreender o lugar dos simbolismos nas ferramentas tecnológicas é fundamental para entender o impacto cognitivo que tais meios de comunicação exerce sobre a mente humana. Assim, esta proposta se mostra revelante pelo por querer desvelar a técnica e ao retirar seu valor '‘mágico’' busco amplificar a capacidade de conhecimento humano.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA


Elaborações filosóficas acerca do intelecto

O objeto de análise deste proposta está focado no conhecimento enquanto elemento essencial do homem. O conhecimento em si, tal como elaborado na filosofia antiga compunha a base dos demais estudos acerca da realidade física ou das ciências humanas. Já desde a época da filosofia clássica que o conhecimento é alvo de especulações. Por isso preciso recorrer as ideias de Aristóteles, ele elaborou um esquema de raciocínio segundo o qual a substância intelectiva é a diferença distintiva do homem em relação a demais formas de vida animais. Nota-se em Aristóteles que o desdobrar das características do homem acontece através do composto corpo e alma intelectiva. Apesar do seu caráter composto e indissociável, no ato do viver a alma e o corpo foram considerados como substâncias distintas que coexistem a partir de estados correspondentes. A correspondência entre a alma e seu corpo são condicionados aos estados e afecções desta alma, porém, entre todos os estados experimentáveis pela alma tem-se que o intelecto seria o mais incorruptível e, portanto, é aquele que disporia da vitalidade essencial própria da alma humana. Assim, através daquelas primeiras elaborações aristotélicas temos uma concepção de conhecimento no sentido intelectivo orgânico e isto corresponderia em linguagem filosófica cristã ao que há de eterno e durável no homem.

Em Agostinho vê-se a mesma linha filosófica sobre a alma enfatizando o caráter qualitativo segundo a qual não se poderia aplicar as dimensões corpóreas para compreender os movimentos ou afecções específicos da alma. A capacidade racional é a substância que conduz ao conhecimento. Na filosofia agostiniana a memória é evocada como a função por excelência da racionalidade intelectiva, por meio da memória a alma consegue elaborar grandes quantidades de informações e imagens que a cognição humana retêm em forma de pensamentos.

Ao considerarmos a condição humana como um composto de corpo e alma, sendo um a matéria e outro a forma ou ato de tal matéria tem-se, conforme afirmou Aquino, um composto essencial. A essência humana ou o gênero segundo o qual consideramos um ser em particular como humano seria exatamente a oisía, termo grego utilizado para denominar a quididade de seres cuja estrutura ontológica existencial dependem da união indissociável de corpo e matéria. O gênero humano é, do ponto de vista racional, tomado como um universal indiferenciado que vem de uma forma determinada em matéria específica. Esta forma (ou ato) só se torna determinada quando considerado no ser individual que expressa a diferença da singularidade em relação ao universal indiferenciado do gênero humano.

A partir das considerações tratadas por Aquino têm-se que as noções de universal e singular são elaborações da essência intelectiva própria ao homem de onde se predica que o ser humano é um ente racional ou intelectivo, deste modo, a intelecção do universal não ocorre do mesmo modo que a intelecção dos singulares (que se refere a existência concreta de um determinado ente), pois o ente inteligente toma esta noção intelectiva apenas e tão só do universal. É a partir das semelhanças aparentes das coisas que as noções do universal aparecem ao humano, a diferença que o ente possui é tomada a partir do ser, ou seja, é homogeneizada ou neutralizada dentro das categorias intelectivas que sejam medidas em comum entre um determinado grupo de entes singulares.

A partir do exposto pode-se observar como a intelecção humana exerce um papel fundante no seu modo próprio de existência. A universalidade é elaboração intelectual, mas o intelecto em si mesmo é parte de uma singularidade determinada (indivíduo singular), desta forma, não se pode compreender o conhecimento partindo-se apenas dos conceitos e elaborações já estabelecidos, o conhecimento está constantemente sendo vivo porque se impõe a natureza do humano como forma de sua essência peculiar. Por isso que a filosofia moderna é um campo tão aberto a aparentes contradições, o poder da dialética moderna reside na capacidade de digestão intensa do conhecimento antigo e atual, o que tornou o processo intelectual cada vez mais voraz e permeado das dimensões concretas da vida moderna. O conhecimento passou a ser visto como elemento demarcador da história dos homens. Os vários aspectos da condição humana, tais como o Estado, a religião, a organização social e os lugares culturais dos povos passaram a ser enxergados dentro de lógicas transcendentes ao próprio tempo histórico e tal forma de entendimento ganhou tanta força que nota-se a mesma ascendência cultural intelectiva dos gregos antigos mesmo na organização dos homens atuais, onde se verifica uma convergência racional "pura" (no sentido que disse o filosófo alemão Kant). Portanto, conclui-se que todos os elementos tecnológicos e científicos modernos são razão pura e aplicada, ser racional portanto não pode ser negligenciado pelo humano, pois até a política [animalidade primitiva da qual falou Aristóteles ao assinalar o "homem é uma animal político"] é hoje totalmente adestramento cognitivo, ou seja, mesmo o "maior" animal político está  condicionado nas contingências da governação racional moderna.


Filosofia e a técnica científica moderna

Na filosofia moderna pode-se destacar a obra de Kant que elaborou a chamada virada copernicana na filosofia ao realizar uma detalhada crítica dos dogmas clássicos da metafísica [a ciência que Aristóteles assinalou como sendo a filosofia primeira por se tratar das cauas primeiras]. Entre estes dogmas tem-se a questão dos limites do conhecimento intelectivo, que dentro da filosofia kantiana são colocados sem os aspectos teológicos tal como os metafísicos da filosofia antiga e medieval fizeram. O problema filosófico kantiano tornou-se a base da filosofia moderna posterior e está radicado na sua Crítica da Razão Pura dedicada a refutar o ceticismo empirista da filosofia de D. Hume. Kant elaborou um método segundo o qual a razão especulativa pode conhecer os seus próprios limites de conhecimento e assim estabelecer e delinear um sistema de problemas metafísicos passível de elaboração racional, em outras palavras, Kant pretendeu alcançar juízos racionais a priori com exatidão irrefutável que pudesse subsidiar a elaboração de conhecimentos filosóficos.

Em sua forma de especulação Kant estabeleceu dois troncos para o conhecimento humano que são: a sensibilidade, através da qual os objetos são dados ao conhecimento; e o entendimento que é a faculdade própria ao pensamento e se põe a trabalhar sobre os objetos, é por meio do uso do entendimento que o homem elabora conceitos e juízos da realidade. A sensibilidade não consegue conhecer o objeto ou a coisa em si, deste modo, Kant apontou que só percebemos a realidade em si de modo parcial, pois, a sensibilidade é um certo modo específico do  singular [humano] ser afetado, e sendo o ser humano singular um ente diferenciado dentro do próprio gênero [que é categoria intelectiva] segue-se que o modo peculiar que somos determina a forma como nossa sensibilidade experimenta os objetos da realidade. Kant falou portanto do fenômeno, que é aquilo o que efetivamente podemos perceber dos objetos e a tal corresponde a objetividade conferida ao método especulativo da metafísica kantiana.

Ao falar sobre o entendimento Kant propõe a lógica transcendental como a ciência do conhecimento puro pelo qual os objeto da realidade são tomados a priori, tal ciência está radicada na inteligibilidade do sujeito transcendental. Por ser um sujeito pensante o homem pode elaborar os objetos no pensamento mesmo não tendo acesso completo a coisa em si, isto significa dizer que as categorias do conhecimento humano são muito mais abrangentes que aquilo para o qual a sensibilidade se volta. Ao se prender na sensibilidade pura o homem não alcança o conhecimento puro tornando-se apenas um ‘refém’ do empirismo que se ilude com os fenômenos sensíveis.

Por meio do entendimento em seu estado puro o homem elabora conceitos e destes conceitos advém os juízos (sintéticos e analíticos) através dos quais o homem localiza a sua própria inteligibilidade no mundo real. O real em si é a coisa inacessível para a sensibilidade humanaseria formada pela contração da realidade sempre por se realizar no ato do pensamento puro. Então para evitar as confusões próprias do conhecimento sensitivo, Kant elaborou formalmente como são e onde estão radicadas as estruturas mais fundamentais ao sujeito do conhecimento [aquele que tem a razão transcendental] duas intuições: a do espaço que é a estrutura anterior aos objetos e que fundamenta o conhecimento inteligível destes objetos; e o tempo compreendido enquanto a consciência em si mesma percebendo em si o conjunto de juízos e conceitos internos que conferem senso de unidade e de autorrepresentação do ser que conhece.


Filosofia enquanto ciência do espírito

Em um texto breve, mas denso, Heidegger analisa o filosofar e aponta a filosofia como a essência de um longo percurso intelectual do homem ocidental. Ele dá prevalência a tradição filosófica grega pois viu nela um “caminho” que conduz o entendimento humano ao ser do ente. O ente e seu ser são considerados de um ponto de vista existencial concreto, por isso ele retoma a ideia de lógos enquanto a linguagem operante do homem. Enfatiza o modo “privilegiado” da linguagem filosófica cuja finalidade mais essencial é falar do ser nos entes fenomenicamente manifestos. Ao colocar o problema da filosofia como o lógos do seres, vê o essencial da vida intelectiva na própria linguagem.

Na trajetória intelectual do Ocidente a linguagem manifesta pelo lógos filosófico caminhou em direção a técnica, e por isso torna-se papel do filósofo não apenas entender a linguagem filosófica tradicional, mas sobretudo ele precisa entender os desdobramentos que a racionalidade técnica conferiu ao homem contemporâneo. A ciência moderna está invariavelmente atrelada aos seus fundamentos filosóficos e por isso a principal tarefa de uma filosofia científica seria compreender as principais formas de essências ou fenômenos que têm sido descobertas ou ampliados pelos fazer da técnica.

A partir das ideias de Heidegger é possível entender que a função investigativa da filosofia e seu modo privilegiado de questionar a técnica coloca em evidência a inquietude do ente do pensamento. O ente humano é alguém colocado no mundo e seu modo de vida sempre se desdobra a partir das muitas linguagens que ele articula para fazer deste mundo um lugar seu. O lugar visto de um ponto existencial é mais que marcações do espaço, é a forma como o humano expande seu modo de ser. Por meio do uso do saber técnico o homem moderno amplificou consideravelmente a racionalidade objetificante típica dos povos ocidentais, contudo, este modo de ser impõe também inúmeros desafios ao observarmos como a sujeição da técnica torna o humano um ser des-enrraizado, ao ser levado de forma cega pela técnica o humano esquece sua própria capacidade de condutor e seu intelecto corre o risco de ser sujeitado e não mais o Sujeito Transcendente tal como delineado por Kant.

Somente aprendemos a conhecer e a saber quando experimentamos de que modo a filosofia é. Ela é ao modo da correspondência que se harmoniza e põe de acordo com a voz do Ser e do ente. Esta cor-responder é um falar. Está a serviço da linguagem. O que isso significa é de dificil compreensão para nós hoje, pois nossa representação comum da linguagem passou por um estranho processo de transformação. Como consequência disso a linguagem aparece como um instrumento de expressão. (HEIDEGGER, 2018 [1956], p. 44)

A apropriação do entendimento filosófico nos leva a perguntar se as fronteiras da tecnologia moderna não seriam elas próprias um instrumento de desintegração cognitiva do homem preparado exatamente para revelar a verdadeira essência do sujeito científico que é o humano. Ou seja, os problemas na ordem tecnológica são os mesmo apontados por Kant em sua necessidade de perceber com clareza os limites cognitivos humanos e assim ser coerente no si mesmo. Cabe portanto analisar os aspectos da alma não apenas enquanto um intelecto puro e estruturado na forma dos elementos apriorísticos que apontou o Kant, mas podemos pensá-lo também dentro de sua desintegração. Tal desintegração ocorre por conta da inevitável união do sujeito com seu mundo, se consideramos o conceito de ser-no-mundo ou ser-aí (Da-sein) conforme utilizado por Heidegger perceberemos que a condição humana se encontra diante dos limites segundo os quais pensou o grande Kant, o que significa que alguma revolução do Sujeito já está em evidência e tal não se dará numa forma transcendental tal como elaborada na filosofia kanteana e neokanteana, mas de forma imanente tal como já vem apontando a filosofia fenomenológica de Heidegger.

A desintegração do ser - aí já vem sendo sintomatizado nos casos clássicos analisados pelos primeiros psicanalistas. A psicanálise que hoje já está institucionalizada sendo parte importante da tecnologia da clínica moderna veio a absorver em si aqueles sintomas do ser - aí, o qual manifesta um caminho de inevitável confronto com seu próprio mundo vital. Entendo que o que é orgânico não se comporta com a mesma objetividade fria com a qual a técnica o trata, porém, o orgânico que é o humano já não pode controlar seu mundo vital sem os correspondentes controles cognitivos sobre o não - orgânico.


A angústia do espírito na epistemologia moderna

A desintegração assinalada acima é um fenômeno que se manifesta na forma como o pensamento ocidental tem funcionado desde as grandes descobertas industriais do sujeito de Kant. Tomemos novamente Heidegger como referência, que ao falar sobre o tema da identidade e da diferença demonstra como a noção matemática da igualdade fere a própria lógica filosófica. 

O indêntico está relacionado a identidade intrínseca do ser, por meio da tradução do original grego para o latim, nota-se aí a presença de ressonância das épocas passadas no pensamento moderno, mesmo atualmente a questão da identidade do sujeito pensante é o principal problema hermenêutico que ronda a mente de muitos pesquisadores em epistemologia.

O idêntico, em latin idem, designa-se em grego tò autó significa o mesmo... A fórmula A=A fala da igualdade. Ela não nomeia A como o mesmo. A fórmula corrente para o princípio da identidade encobre, por conseguinte, justamente o que o princípio quereria dizer: A é A, quer dizer que cada A é ele mesmo o mesmo. […] A fórmula mais adequada para o princípio da identidade A é A não diz apenas: cada A é ele mesmo o mesmo; ela diz antes: consigo mesmo é cada A ele mesmo o mesmo. Em cada identidade reside a relação “com”, portanto, uma mediação, uma ligação, uma síntese: a união numa unidade. Por isso a identidade aparece, através da história do pensamento ocidental, com o caráter da unidade. Mas esta unidade não é absolutamente o insípido vazio daquilo que, em si mesmo desprovido de relações, persiste na monótona uniformidade. (HEIDEGGER, 1957, p. 9,10)

Em sua psicanálise Freud assinalou uma noção unitária de Ego e em contraposição a este ente psíquico ele colocou o Id com seus elementos internos e subversivos que demarcam a diferença na consciência de si e o Super - Ego com todos os elementos externos, uma espécie de instância sintética onde o Ego encontrar proteção do si próprio mais profundo do Id. Conforme estas elucidações freudianas pode-se compreender o tipo de diferenciação ocorrida por meio da ruptura do conhecimento na técnica moderna. Sendo a principal função da vida psíquica o princípio do prazer, conforme escreveu Freud, segue-se então que ao empenhar seu aparelho psíquico no trabalho intelectivo o humano transfere para tal ato grande impulso de energia vital, porém, nenhum individuo ou grupo é capaz de absorver toda a carga de conteúdos simbólicos e culturais gerados no aumentar progressivo de conhecimento. Tem-se, portanto uma situação de desilusão como apontado por Freud.

Descobriu-se que o ser humano se torna neurótico porque não é capaz de suportar o grau de frustração que a sociedade lhe impõe a serviço de ideias culturais, e disso se conclui que suprimir ou reduzir consideravelmente essas exigências significaria um retorno a possibilidades de ser feliz.

Soma-se a isso ainda um fator de desilusão. Ao longo das últimas gerações, os homens fizeram progressos extraordinários nas ciências naturais e nas suas aplicações técnicas, consolidando o domínio sobre a natureza de uma maneira impensável no passado. (FREUD, 2017 [1930], p. 84)

A ideia de progresso impregnada no modo técnico de se fazer ciência demonstra o quão consolidado está o investimento de energia vital sobre a acumulação e consolidação de conhecimento. Todo este esforço por conhecer mais não está baseado no amor ao saber em si [como diziam os mais antigos], mas na apropriação de energia psíquica que emana dos homens quando eles se ligam em torno de uma ideia ou valor que considerem dignos de sacrifícios. Freud descreve os mecanismos internos que levam o indivíduo a colocar-se a serviço de ideias ou pessoas que muitas vezes podem até ferir a unidade ou a felicidade do seu Ego.

Assim, o caráter sinistro e compulsório da formação de massas, que se mostra em seus fenômenos sugestivos, provavelmente pode ser atribuído com razão à sua proveniência da horda primordial. O líder da massa continua sendo o temido pai primordial, a massa ainda quer ser dominada por uma força irrestrita, anseia pela autoridade num grau extremo, tem, segundo a expressão de Le Bon, sede de submissão. O pai primordial é o ideal da massa, que domina o eu em lugar do ideal do eu. A hipnose tem todo o direito de ser chamado de “uma massa a dois”; quanto a sugestão, resta-lhe esta definição: é uma convicção que não se baseia na percepção e no trabalho intelectual, e sim na ligação erótica. (FREUD, 2017 [1927], p. 84)


É preciso compreender a natureza ontológica do conhecimento, pois no homem o ser e o pensar estão em relação de identidade, porém, no interior deste idem reside o acontecimento que é manifesto no lógos humano e que o divide nele mesmo. No universo do saber, o conhecimento não está dado de modo gratuito ao homem, pois ele somente o obtêm a partir da totalidade co – extensiva presente no ser pensante e o mundo que lhe corresponde. Portanto, o mundo tomado como campo dos fenômenos para consciência passa a ter uma manifestação condicionada a esta consciência auto - perceptiva.

Enquanto sou consciência, quer dizer, enquanto algo tem sentido para mim, não estou nem aqui nem ali, não sou nem Pedro nem Paulo, não me distingo em nada de 'outra' consciência, já que nós somos todos presenças imediatas no mundo e já que este mundo é por definição único, sendo um sistema de verdades. Um idealismo transcendental consequente despoja o mundo de sua opacidade e de sua transcendência […] Para Husserl, ao contrário, sabemos que existe um problema do outro e o alter ego é um paradoxo. (MERLEAU – PONTY, 1999 [1945], p. 7,8)

Para compreender o problema do outro, conforme apontado acima, deve-se primeiro perceber o paradoxo do ente genérico intuído na intelecção humana e a singularidade dinâmica com a qual o Ego individual se apresenta por meio da consciência de si mesmo. Este ente dinâmico se torna parte do próprio entendimento que intui as essências genéricas dos universais lógicos. O outro é alguém que prova a dinâmica do Ego e ao mesmo tempo impõe seus limites, pois no contato com vários outros o Ego percebe sua impotência e passa a ser subjugado pelo Supe-Ego. Todos estes elementos são conjugados no intelecto, mas quando percebemos o mundo comum a todos então a universalidade genérica toma conta da própria consciência do Ego levando o ser humano a percebe-se imerso em um turbilhão de sentimentos, afecções e pensamentos maior que ele mesmo, o que Freud chamou de Id e se traduz também como Isso [que sou]. O Id freudiano é o indiferenciado da experiência do ser dentro da percepção humana frente a tudo que, lhe sendo maior, encontra-se ao dispor do ser que se sente alma.

A universalidade genérica adquirida aparece para a consciência quando esta desenvolve o conhecimento de si e do mundo. Por meio da redução ao fenômeno têm-se o elemento essencial: a unidade da consciência e dos objetos apreendidos por ela. Como ponto de partida, esta unidade é multiplicadora em si mesma pois envolve camadas psíquicas soterradas por afetos e emoções projetáveis no campo interno e externo da alma. E em tudo isto não se pode esquecer do impulso vital que confere dinamismo a todos os processos da alma ao qual podemos chamar de impulso vital, entre os psicanalistas é comum considerá-lo como sendo a libido, porém, é mais amplos pois envolveria até mesmo os impulsos do isolamento social. A ideia de um impulso vital é algo como à vontade de potência nietzscheniana, pois refere-se ao Ego indiferenciado e genérico da experiência imediata que somente ganha corpo e torna-se um si individualizado pela intransigência ou força impulsiva de desejos maiores que àquelas necessidades meramente orgânicas.

Ao delinear o impulso vital verificamos que é o isto  [Id] o realmente necessário na construção do espírito científico moderno, contudo, quando este impulso vital se projeta como técnica cega ocorre uma inversão nos aspectos vitais. O espírito vital presente na busca de conhecimento saberá achar meios de expansão ou será preso pelas astuciosas formas de engenharia cognitivas presentes no atual estágio do sujeito moderno? É precisamente nesta pergunta que a mentalidade atual encontra sua fronteira, perguntar-se até onde o intelecto vivo pode nos levar é levantar os olhos para todos os aparatos de substituição da vida propriamente humana; e ver a amplitude de tudo que a humanidade alcançou é também uma responsabilidade com todos os vivos e mortos que participaram e participam da condição humana.


METODOLOGIA

O tipo de pesquisa online que faço é hermenêutica – filosófica, pesquisa bibliográfica de caráter qualitativa, com três etapas para atingir os objetivos.

Para a primeira etapa da pesquisa será feito levantamento bibliográfico e análise bibliográfica, os procedimentos são compostos de três eixos de análise: primeiramente serão analisadas obras de filosóficas que contribuíram na delimitação científico/epistemológica das funções intelectivas e/ou cognoscitivas da alma notadamente três autores Aristóteles, Agostinho e Tomás de Aquino; no segundo eixo serão tomadas em considerações obras de filósofos modernos que trataram de estabelecer o lugar da razão nas disposições do sujeito do conhecimento para tal serão tomadas como referências trabalhos selecionados de Kant, Hegel e Heidegger; e, por fim, serão verificados autores críticos contemporâneos que lidaram diretamente da técnica científica e suas implicações filosóficas na linguagem humana neste caso as referências serão em vários campos do conhecimento, sendo importante trabalhos de Kierkegaard, Nietzsche, Freud, Merleau – Ponty e Flusser.

Já a segunda etapa será realizada através de plataformas digitais de revistas científicas que versam sobre as temáticas: tecnologias, ciências cognitivas e aplicações de inteligência artificial. Por meio destas pesquisas pretende-se compreender como os cientistas estão interpretando a interação simbólica homem e máquinas digitais.

E por fim, na última etapa pretende-se compilar os dados em informações relevantes ao tema proposto e analisar os estudos de acordo com as hipóteses de trabalho levantadas no início e colocar tudo na rede online e acessível, sem cobranças de valores monetários. Até mais.


Rízia Eduarda Andrade, data da publicação 18 de dezembro de 2025, Aracaju, Sergipe, Brasil.



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