Comentários e anotações sobre HEIDEGGER

 


Ideias principais (e citações)

  • Tipo de filosofia e tratamento do tema

A palavra “filosofia” fala agora através do grego. A palavra grega é, enquanto palavra grega, um caminho. De um lado, esse caminho se estende diante de nós, pois a palavra já foi proferida há muito tempo. De outro lado, ele já se estende atrás de nós, pois ouvimos e pronunciamos a palavra desde os primórdios de nossa civilização. Desta maneira, a palavra grega filosofia é um caminho sobre o qual estamos a caminho” (p. 10)



  • A filosofia e a ciência

Isto é atestado pelo surto e domínio das ciências. Pelo fato de elas brotarem da marcha mais íntima da história ocidental-europeia, o que vale dizer do processo da filosofia, são elas capazes de marcar hoje, com seu cunho específico, a história da humanidade pela orbe terrestre. (...) A energia atômica descoberta e liberada pelas ciências é representada como aquele poder que deve determinar a marcha da história.” (p.12)



  • O sentido do ser (ti estin) em filosofia

a filosofia de Platão é uma interpretação característica daquilo que quer dizer o . Ele significa precisamente a ideia. O fato de nós quando perguntamos pelo tí, pelo quid, nos referimos à “ideia” não é absolutamente evidente. (...) Já desde há muito tempo costuma-se caracterizar a pergunta pelo que algo é, como a questão de essência.” (p.17)



  • A língua grega e a essência da filosofia

Ente e ser – isto se tornou para os gregos o mais espantoso. (...) O sophón - o ente no ser – é agora propriamente procurado. Pelo fato de o philein não ser mais um acordo originário com o sophón, mas um singular aspirar pelo sophón, o philein tó sophón torna-se “philosophia”. Esta aspiração, é determinada pelo Eros. (p. 22-23)



  • A finalidade da filosofia

A filosofia é epistéme, uma espécie de competência, theoretiké, que é capaz de theorein, quer dizer, olhar para algo e envolver e fixar com o olhar aquilo que perscruta. É por isso que a filosofia é epistéme theoretiké. Mas que é isto que ela perscruta?

Aristóteles di-lo, fazendo referência às prótai archai kai aitai. Costuma-se traduzir: “as primeiras razões e causas” – a saber, do ente. As primeiras razões e causas constituem assim o ser do ente. ” (p.26)





  • O debate na filosofia e a historicidade dos filósofos

Uma coisa é verificar opiniões dos filósofos e descrevê-los. Outra coisa bem diferente é debater com eles aquilo que dizem, e isto quer dizer, do que falam. ” (p. 31)

Por isso somente chegamos assim à correspondência, quer dizer, à resposta à nossa questão, se permanecermos no diálogo com aquilo para onde a tradição da filosofia nos remete, isto é, libera. Não encontramos a resposta à questão, que é a filosofia, através de enunciados históricos. Sobre as definições da filosofia, mas através do diálogo com aquilo que se nos transmitiu como Ser e ente. ” (p.33)



  • O espanto e o desdobrar da filosofia

já os pensadores gregos Platão e Aristóteles chamaram a atenção para o fato de que a filosofia e o filosofar fazem parte de uma dimensão do homem, que designamos disposição (no sentido de uma tonalidade afetividade que nos harmoniza e nos convoca por um apelo)”. (p.38)

O espanto é enquanto páthos, a arché da filosofia. Devemos compreender, em seu pleno sentido, a palavra grega arché. Designa aquilo de onde algo surge. Mas este “de onde” não é deixado para trás no surgir; antes arché torna-se aquilo que é expresso pelo verbo archein, o que impera... O espanto carrega a filosofia e impera em seu interior. ” (p.38)



  • A filosofia e a linguagem do lógos

somente aprendemos a conhecer e a saber quando experimentamos de que modo a filosofia é. Ela é ao modo da correspondência que se harmoniza e põe de acordo com a voz do Ser e do ente. Esta cor-responder é um falar. Está a serviço da linguagem. (...) De acordo com isso, tem-se por mais acertado dizer que a linguagem está a serviço do pensamento em vez de o pensamento como correspondência está a serviço da linguagem. Aos gregos se manifesta a essência da linguagem como o lógos. Mas o que significa lógos legein? “ (p.45)


Temática, objetivo, conclusões principais

O tema abordado nesta pequena e densa obra está voltado a análise da filosofia enquanto uma essência própria que aparece como um fenômeeno ao longo do percurso intelectual do homem ocidental. Ele dá prevalência a tradição filosófica grega pois vê nesta um “caminho” que conduz o entendimento humano ao “Ser do ente”. O ente e o ser são considerados de um ponto de vista existencial concreto a partir do lógos (linguagem) no homem. A discussão passa também pelo modo ‘privilegiado’ tal como a linguagem grega conseguiu desenvolver o tema da essência do ente em seu ser mais próprio. Ele recorreu ao sentido originário da linguagem grega para mostrar a permanência e o cuidado com o “caminho” traçado desde os filósofos antigos, tais como Heráclito, Sócrates, Platão e Aristóteles que ainda permanece em nossa tradição humana.

O objetivo principal da obra foi tematizar de modo sintético os principais pontos envolvidos no trabalho filosófico enquanto tal. Desta forma ele destaca os seguintes pontos: a noção do ser e da essência como o fundamento da procura filosófica. Esta procura começaria no ente pensante do ser e se dirige aos entes e seres em geral a partir daquilo que ele chamou de “espanto”. O espanto é a atitude que conduz o raciocínio filosófico a sempre perscrutar a realidade de modo relutante o que envolve os afetos e disposições existenciais mais próprias do ser humano.

Entre as principais conclusões obtidas pode-se destacar as seguintes: a designação da filosofia enquanto o ‘apego afetivo’ e direcionado ao ente enquanto manifestação do ser. Coloca o lugar da historicidade filosófica não em termos de compilação de opiniões e ideias filosóficas ao longo do tempo, mas colocou a filosofia como uma ‘linguagem’ privilegiada na qual é possível desenvolver a essência do lógos racional; um correspondente exato do ser com seu ente tal como manifesto na existência.

Abordou a arché (origem) do filosofar como algo presente sempre em filósofos de várias gerações sendo distinto apenas a interpretação e perspectiva em que se aborda o ser e seu ente. Deste modo, cada filósofo se deparou com o mesmo espanto ante ser e ente e cada um a seu modo próprio e único desenvolveu a linguagem filosófica no sentido de ajustá-la em maior correspondência ao pensamento em seu ato puro relativo ao ser que pensa.



O método de análise utilizado

O método fenomenológico aparece com muita evidencia nesta obra estando principalmente atrelado ao tratamento ontológico que ele confere ao tema, colocando o filosofar enquanto uma essência da racionalidade e harmonização do ser do homem a partir da existência vivida de modo próprio já que o mais próprio do homem é o pensar reflexivo. Logo na apresentação a interpretação é colocada como a principal diferença do filosofar ao longo das várias épocas, contudo a interpretação filosófica não pode ser entendida como mero manual de conceitos ou regras a serem aplicadas com fins pragmáticos imediatos, mas é uma certa via de percepção existencial na qual a tonalidade da disposição afetiva do filósofo sobressai e faz que ele encontre o sentido mesmo das essências que busca. Portanto, observa-se o caminho fenomenológico completo que vê na manifestação do ente a porta de acesso ao fundamento do ser que se encontrar em suas essências interligadas pela aplicação filosófica da razão.



Questões psicológicas e filosóficas suscitadas

Primeira questão é entender como a era científica moderna está atrelada inevitavelmente com seus fundamentos filosóficos. A partir desta reflexão do Heidegger é possível elaborar a questão acerca do que seriam as principais formas de essências e que têm sido descobertas ou ampliadas no modo científico atual. E por fim cabe questionar qual seria o lugar do ente filosófico na angústia subjetiva que encerra muitos homens a uma técnica pela técnica onde a própria vida orgânica começa a sucumbir diante do automatismo artificial das máquinas cognitivas.


Referência do texto: HEIDEGGER, Martin [1889 - 1979]. Que é isto: a filosofia? Tradução e notas de Ernildo Stein. Petrópolis, R.J: Vozes, 2018 – (Coleção Vozes de bolso).

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