Texto sobre cristianismo e Lacan
O pecado e os princípios morais cristãos:
Convergências entre a teologia paulina e a filosofia estruturalista
Sin and the Christian moral principles:
convergences between Pauline theology and the structuralist philosophy
Resumo
A compreensão intelectual acerca do pecado tem exercido profundas influências sobre a mentalidade humana, em especial sobre os povos que cresceram a partir da influência da religião judaico-cristã. A análise deste tema exige a compreensão dos mecanismos sociais e psicológicos envolvidos na dialética culpa/punição, e apesar de ser um conceito teológico nota-se que na noção do pecado estão implicados elementos analisáveis em várias áreas do saber científico. A elaboração cristã acerca do pecado teve e ainda tem repercussões permanentes nas estruturas simbólicas e psicolinguísticas do homem, é uma noção que vai além dos aspectos normativos, remonta a formação teológica implícita nos escritos do apóstolo Paulo. O objetivo deste trabalho é fazer uma análise estrutural do conceito de pecado, procurando responder se há convergência da tradição cristã paulina com o entendimento filosófico do sujeito racional. O método de análise proposto é hermenêutico com ênfase na filosofia linguística de pensadores modernos como Lacan que observou na estrutura do ser desejante a chave para compreender a morbidez que aparece na condição humana.
Palavras-chave: Pecado. Estruturalismo. Filosofia. Teologia. Cristianismo.
The intellectual understanding of sin has had profound influences on the human mentality, especially on people who grew up under the influence of the Judeo-Christian religion. The analysis of this topic requires an understanding of the social and psychological mechanisms involved in the guilt/punishment dialectic, and despite being a theological concept, it is noted that the notion of sin involves elements that can be analyzed in various areas of scientific knowledge. The Christian elaboration on sin had and still has permanent repercussions on the symbolic and psycholinguistic structures of man. It is a notion that goes beyond normative aspects, going back to the theological formation implicit in the writings of the apostle Paul. The objective of this work is to carry out a structural analysis of the concept of sin, seeking to answer whether there is convergence between the Pauline Christian tradition and the philosophical understanding of the rational subject. The proposed method of analysis is hermeneutic with an emphasis on the linguistic philosophy of modern thinkers such as Lacan, who observed the key to understanding the morbidity that appears in the human condition in the structure of the desiring being.
Keywords: Sin. Structuralism. Philosophy. Theology. Christianity.
Introdução
Este artigo tem um viés ensaístico e propõe uma discussão hermenêutica - filosófica acerca da estrutural do pecado, tal como está delineado na tradição cristã. A significação moral em torno do pecado é parte dos valores simbólicos elaborados no interior das instituições jurídico-políticas da cristandade, no cristianismo ocidental o pecado foi posto em termos moralistas e ontológicos, porém, com a disputa interna da Igreja Católica ocidental, por ocasião da reforma protestante, o conceito de pecado ganhou projeções teológicas mais sofisticadas e por meio da noção de depravação total, elaboração calvinista, operacionalizou-se a ideia de pecado para além da noção moral normativa do direito canônico medieval.
O pecado é um conceito que envolve a compreensão do homem em sua dimensão sócio psicológica. Pecar é um verbo que indica uma infinidade de possibilidades, de modo que, tentar definir o que seja pecado já é em si um exercício hermenêutico. Ao estabelecer-se como uma tradição religiosa dominante, o cristianismo apropriou-se de modelos filosóficos clássicos, tendo como objetvo fundamentar com mais rigor lógico as premissas através das quais se pôde considerar o homem como uma criatura pecadora. A apropriação filosófica da teologia cristã remonta os escritos apostólicos e com a grande influência do apóstolo Paulo foi-se estabelecendo as bases para uma noção de pecado para além da lei.
O bem e o mal são categorias morais, nesse sentido, envolve as instâncias da razão e o juízo da realidade. Mas o pecado não pode ser contido nas categorias da moralidade pois envolve o ser do desejo que é o humano. Pecado é a ação incondicionada do desejo tal como delineado pelo apóstolo Tiago (Tg 1,14-15), já o bem e o mal são ações racionalizadas a partir de uma lei prévia tal como se configura na narrativa bíblica da queda do homem (Gn 3,1-13). Nota-se através do texto bíblico do Gênesis que Eva pecou em seu desejar e somente após a descoberta da nudez é que se pôde saber o que era bem e mal e assim se entrou na órbita da moralidade propriamente humana.
A ordem divina que foi dada a Adão e Eva é peculiar em dois sentidos; primeiro foi como um limite: “De toda árvore comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás (...)” (Gn 2, 16-17), neste sentido pode-se observar o pecado apenas como a virtualidade impressa pela possibilidade de romper os limites estabelecidos; já em outro sentido os primeiros pais receberam a lei enquanto uma ordem de causalidade fundamental: “porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2,17), neste caso há uma barreira que não poderia ser evitada: é o real enquanto o inescapável da condição mortal, e foi nesta mortalidade que o pecado se ergueu como a realidade humana inevitável na qual as ações e intenções convergem para a fraqueza do morrer: “Porquanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram.”(Rm 5,12)
Pode-se dizer que a primeira mulher foi o ser que inaugurou a instância do desejo na condição mórbida e como tal tem sido considerada2 o grande mistério em torno do pecado original: “Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva. E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.”(1Tm 2,13-14) A originalidade da primeira mulher pode ser percebida na concepção do desejo proibido, por isso que após este pecado, sendo Eva a mãe de toda a humanidade, Deus logo operou a sua lei e o fez para evitar a morte de toda a criação humana, a ordem do criador sobre a mulher condicionou a concepção (geração de filhos) dela a um desejo alienado: “o teu desejo que será para teu marido, e ele te governará”(Gn 3,16); eis o desfecho do desejo posto na condição do pecado: “em meio de dores darás à luz filhos”(Gn 3,16) e assim o pecado passou a todos: pelas dores do desejo alienado de Eva.
A filosofia agostiniana foi prodigiosa em compreender o mal sem confundir a condição ontológica com a moralidade envolvida na consciência. A partir de Agostinho descobrimos que o mal não existe enquanto uma entidade ontológica, isto implica dizer que o mal não pode ser criado nem constitui fundamento existencial da matéria. A matéria humana (seu corpo) não é mal, nada no real da criação é intrinsecamente mal, pois a maldade é tão somente uma categoria da consciência do ser e depende deste ser que aparece através da linguagem em si. O mal existe enquanto condição de uma moralidade estabelecida na consciência, portanto, pecado, culpa e outros correlatos são categorias do pensamento, existem enquanto o pensar subsistir, morrendo o ser que pensa (o sujeito pensante cartesiano) então perece os efeitos do bem e do mal na condição humana. Assim, pode-se postular que a realidade do bem e do mal está fundamentada na linguagem. Ao tomar a narrativa bíblica como referência se percebe que foi somente quando a antiga serpente falou (Gn 3,1-5) que o mal começou a ser efetivo. Porém, a fala (da antiga serpente) ainda que tenha sido eficaz não pôde alterar as condições ônticas do real, ou seja, o mal não tem poder sobre o real, apenas sobre a realidade mnemônica do sujeito que sabe falar. Portanto, a moralidade está condicionada à racionalidade consciente do bem e do mal, enquanto que o pecado está condicionado ao ser implicado na fala.
Pecado é o vício da carne, carne é a vivência da própria mortalidade, é o corpo da morte, vê-se isso claramente delineado no seguinte trecho: “mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7,23-24). Então, segue-se que ser pecador é uma condição ética com implicações ontológicas. Isto ocorre porque, para nascer na condição mortal, o ser individual precisou contar com o precedente desejo (alienação originária em Eva) que o tornou concebível na concretude do útero materno, por isso a liberdade não pode ser levada em consideração na classificação genérica da condição do pecado. Em sentido bíblico, ser pecador é ontogenético, pois gerar envolve o desejar alheio e a não liberdade é exatamente este alienar-lhe diante de um outro em função do desejo. A liberdade só pôde operar a partir da consciência de ser um indivíduo. É a individualidade que confere a eficácia da liberdade, o homem (segundo a antropologia bíblica) não nasceu livre, o ser humano vem ao mundo em uma condição de nudez psíquica total, seu ser vai se tornando consciente apenas com o auxílio da linguagem (materna) e da lei cultural (paterna), por conta dessa dependência original o humano só pode começar a conhecer algo da liberdade quando consegue sustentar o próprio ser no desejo do Outro que lhe dá o fundamento sociopsicológico orientador.
Para compreender o lugar destacado da liberdade na lógica estrutural do pecado é necessário perceber a dialética subsistente na cadeia lei – pecado tal como consta na teologia paulina, que nos apresenta (Rm 8,15) como a lei condicionou o pecado. A despeito de sua tradição judeu farisaica, verifica-se em Paulo uma reviravolta de vida em função de sua experiência psicológica com o objeto da fé cristã, somente a partir da noção de Cristo vivo, que lhe apareceu no caminho de Damasco (At 9), consegue-se compreender o salto qualitativo da teologia paulina em relação às compreensões religiosas em torno do pecado. A partir da teologia paulina percebemos mais claramente o porquê do pecado ser considerado uma prisão existencial e, ainda que não foi capaz de anular o real ontológico criado por Deus, foi capaz de ferir o Filho unigênito do Pai. A tradição religiosa, desde a época de Paulo e até hoje, vê o pecado em termos de moralidade atrelando-o ao castigo das punições, porém, o cristianismo segundo Paulo nos mostra que a única punição cabível ao pecado foi a morte e, ao ter ficado atrelado com o desejo, a pecaminosidade condicionou a existência humana em sua totalidade.
1. Moral normativa e a tradição judaico-cristã
A moralidade é uma característica recorrente na condição humana, desde as primeiras formações civilizacionais observa-se a preocupação de regulamentar os comportamentos tendo por base princípios pragmáticos que servem para manter a coesão e a perpetuação da comunidade. Para entender o fundamento da moralidade é preciso recorrer aos elementos espirituais que condicionam o conjunto de valores de determinado grupo de pessoas. O pecado está enraizado na consciência coletiva como uma transgressão de ordem moral que tem vinculações com o ente espiritual evocado na religião, desta forma, é pela via da religião que a noção de pecado se torna inteligível e aplicável na realidade social dos homens. Os motivos religiosos conferem o caráter de universalidade permanente àquilo, que, olhado de um ponto de vista antropológico, seriam apenas práticas fortuitas de um grupo humano relativo. No tema em estudo cabe voltar os olhos para o processo histórico do desenvolvimento da fé cristã no ocidente e notarmos como os valores cristãos puderam exercer de forma tão duradoura efeitos na conduta normativa do mundo.
Portanto, se estudarmos a cultura como um todo, descobriremos que existe uma relação íntima entre fé religiosa e realização social. Mesmo uma religião direcionada explicitamente para a contemplação do além-mundo, que por esse motivo parece negar todos os valores e padrões da sociedade, pode, no entanto, exercer notável influência sobre a cultura, fornecendo as forças ativadoras dos movimentos de mudança social. “A religião é a chave da história”, disse Lord Acton. Hoje em dia, quando sabemos da tremenda influência do inconsciente sobre o comportamento humano e do poder que tem a religião tanto de prender quanto de afrouxar essas forças ocultas, esse ditado assume um significado ainda mais amplo do que aquele que seu autor percebeu.1
A moralidade forjada no Ocidente demonstra, desde os estouros das guerras mundiais, um processo de desintegração, sobretudo em função de movimentos geopolíticos desastrosos. O fim das grandes guerras do século XX foi seguida por um avassalador domínio da burocracia norte-americana que pela via da injeção de créditos nos sistemas financeiros e pelo fortalecimento da indústria militar tornou hegemônica a ordem da tecnocracia. O poder ocidental é hoje a imagem da dominação financeira impulsionada na indústria da guerra. Deve-se situar a atual decadência moral a partir dos suportes filosóficos e religiosos tradicionalmente adotados no Ocidente.
O Ocidente é uma criação cultural formada pela conjunção de valores e práticas geopolíticas do antigo império romano com as tribos (germânicos, celtas, anglo-saxões, francos, entre outros) que povoaram a Europa.2 O longo processo histórico de formação ocidental foi orientado durante vários séculos pelo domínio civilizacional da Igreja Católica Romana até que as disputas teológicas passaram a pôr em evidência o poder de influência que as ideias exercem sobre a mentalidade dos povos. As reformas religiosas do século XVI tiveram um caráter revolucionário nos paradigmas da moralidade e dos costumes sociais da cristandade,3 o que gerou as condições geopolíticas para uma mentalidade permeada de relativismos morais, pondo em marcha todos os mecanismos de orientação político e social em vigência atualmente.
Mediante todos os fenômenos sociais e políticos envolvidos na ruptura institucional da Igreja Ocidental ocorreu a irrupção de um modelo de moralidade bastante peculiar, que Weber4 delineou como sendo a consolidação da ética protestante no espírito do capitalismo, uma ética religiosa com conotações racionalistas que pôs a moral cristã sob a égide da dinâmica de prosperidade econômica. A moralidade protestante teve forte influência da teologia calvinista, Calvino foi um reformador francês radicado em Genebra que conseguiu, por meio da força de conceitos teológicos, estipular normas políticas que tornaram o calvinismo um componente geopolítico importante na organização social moderna.
Na doutrina de Calvino a noção de pecado foi levado até seus limites hermenêuticos, tornando-se um dos principais pontos de ruptura que separa a teologia protestante da católica. No calvinismo o pecado foi o que depravou totalmente a condição humana e tal foi o estrago que não é possível ao homem exercer por meio de seu livre arbítrio nenhum bem. Assim, o pecado original aparece como sendo uma condição ontológica radicalmente distinta daquela que fora estabelecida no momento da criação de Adão e Eva.5 Tal abordagem sobre o pecado original foi elaborada a partir da apropriação protestante do pensamento teológico agostiniano, e foi precisamente nesta revalorização do pensamento antigo que o conceito de pecado recuperou todo o seu peso psicológico, representando até hoje um grande capital simbólico para os protestantes.
A doutrina calvinista, tal como ela veio a ser elaborada no protestantismo posterior à reforma, tem um ponto frágil em sua construção e diz respeito ao elemento do livre-arbítrio humano e a predestinação divina. O conceito teológico de predestinação envolve a capacidade divina de determinar o juízo - de salvação ou punição - sobre todos os seres humano (Rm 9,22-24), contudo, sem a ação livre da vontade humana a predestinação tornar-se-ia determinismo puro e simples o que feriria a doutrina da justiça divina (Sl 96,10-13). Na teologia reformada a noção de liberdade só é considerada de modo absoluto quando se refere ao pecado original, já os pecados individuais posteriores a Adão e Eva são tidos como parte da pecaminosidade herdada ontogeneticamente. No entanto, para que o pecado seja o que é nas consciências individuais a liberdade é um elemento necessário para conferir a força psicológica presente no sentimento de culpa. Quando os teólogos (sobretudo os calvinistas) falam da condição pecadora do humano a liberdade é relegada a uma categoria sem fundamento individual, torna-se apenas um conceito jurídico baseado tão somente na normatividade da lei moral, isto ocorre porque se diminui os efeitos condicionantes da vontade como o motor da ação. Para esclarecer esta questão cabe recorrer às construções agostinianas acerca do livre-arbítrio.
Se quando queremos é impossível não querer, os que querem alguma coisa possuem vontade, e, porém, nenhuma coisa está em seu poder senão aquilo que têm quando o querem ter. Nossa vontade, por conseguinte, não seria vontade se não estivesse em nosso poder, e pelo mesmo motivo de estar em nosso poder, é por isso livre, pois é claro que não é livre o que não está em nosso poder ou o que, estando, pode, porém, deixar de estar. (...) Tendo Deus a presciência de nossa vontade, será tal como Ele a prevê; e será também uma vontade ou um ato livre, por que Deus assim o previu. Em contrapartida, não será uma vontade nossa se ela não estiver em nosso poder. Enfim, não fica anulada nossa liberdade pela presciência divina. Ao contrário, nossa liberdade é mais certa porque aquele cuja presciência não se engana previu que seríamos livres.6
Para a lei moral ter eficácia normativa é necessário a presunção do livre arbítrio, isto implica dizer que sem uma vontade livre a transgressão não seria nem eficaz e nem culpável. Mas a questão problemática está em definir o que é o pecado em relação à moralidade, para entender esta relação destaco dois pontos essenciais na estruturação da discussão: primeiro deve-se ter em mente a presença de uma vontade autônoma que tenha o poder de responder por si de modo livre (isto é comum tanto ao conceito de pecado quanto de moralidade); segundo deve-se observar-se que, ao se efetivar no real, a autonomia torna-se correlata do desejo que movimenta a vontade, tal realidade é particular ao pecado pois só nele o desejo tem livre curso de ação. Assim, temos a seguinte lógica dialética: o pecado é uma vontade, a vontade é movida pelo desejo, o desejo é um ato individual que estabelece o querer como realização, por fim, o querer atuante do pecado condiciona a vontade posterior tornando o sujeito preso àquilo que desejou. Isto posto, cabe agora entender em que ordem opera a normatividade da moral, destaca-se que a moral não depende da vontade individual livre para ser o que é, mas de uma lei que determine previamente a ação e a vontade, desta forma, a moralidade pressupõe em si uma restrição da liberdade, mas isto só é possível em função de uma agente livre, ou seja, só se impõe uma lei moral à um ser com possibilidade de transgredir tal lei, ao mesmo tempo, é pela lei que a liberdade de transgredir é refreada na causalidade objetiva da punição. O que entra em jogo na punição é a repressão do indivíduo, e uma sociedade “justa” e “livre” torna-se uma utopia impraticável por conta desta contradição que coloca a liberdade em função do peso das responsabilidades de leis. A ocasião histórica na qual os povos ocidentais puderam perceber a impraticabilidade de sua moral se expressou nas guerras do século XX, e no século XXI a cultura vive o impasse de restringir o indivíduo em nome de uma utópica paz social que só serve de ocasião para aumentar os poderes repressivos do Estado em sua beligerância tecnocrática.
A liberdade individual não é um bem cultural. Ela era a maior possível antes de qualquer cultura; contudo, naqueles tempos ela em geral não tinha valor, pois o indivíduo dificilmente era capaz de defendê-la. (...) Uma boa parte da luta da humanidade se concentra em torno da tarefa de encontrar um equilíbrio conveniente, ou seja, capaz de proporcionar felicidade, entre essas exigências individuais e as reivindicações culturais das massas, e é um dos problemas cruciais da humanidade saber se esse equilíbrio é alcançável através de uma determinada confrontação da cultura ou se o conflito é irreconciliável.7
Portanto, a liberdade é necessária para que a dialética do pecado seja inteligível, no entanto, ao entrar em funcionamento o processo do pecado se põe em desacordo com o próprio princípio livre que lhe deu origem. O poder envolvido no querer é o que desloca a vontade em ação condicionada no sujeito, tal deslocamento empurra a uma dialética insuperável, o sujeito pecador já opera dentro das consequências do ato, daí procede o valor imperativo do complexo de culpabilidade. Já a lógica da lei - punição presente na moralidade é muito menos flexível a vontade livre do indivíduo, pois exige a anulação da espontaneidade em função da regularidade da conduta prevista. Há então uma cadeia lógica que torna o pecado algo anterior à lei moral, enquanto que o pecado pressupõe o ser desejante a lei pressupõe a racionalidade do bem e do mal que é posterior à entrada do pecado no mundo, conforme o relato bíblico. (Gn 3,11)
2. Filosofia ética e a dialética do pensamento
A filosofia é uma postura que envolve sobretudo o diálogo, a partir da linguagem filosófica descobrimos que a sabedoria implica uma postura existencial de não conformismo com o senso comum, levando a reflexão para o campo aberto da dialética. Por isso, filosofia é um caminho que procura conhecer a verdade correspondente ao ser desdobrado nos entes da realidade.8 A percepção dialética da realidade não está dissociada de valores, e ainda que não haja em filosofia um padrão de moralidade pré-estabelecido, há contudo uma certa ética que se volta à compreensão das excelências do conhecimento enquanto lugar da verdade e da sabedoria. No ocidente, o cristianismo foi uma religião aberta às influências da filosofia clássica, sobretudo da grega, e partindo desta consolidada herança cultural a civilização ocidental tornou-se moderna ao reelaborar os pressupostos filosóficos dentro uma sociedade que se abria cada vez mais para a interferência do conhecimento prático no cotidiano. O pensamento filosófico também contribuiu para o entendimento do pecado, pois desde suas origens socráticas postulou-se a verdade como valor em si, colocando sobre o pensamento o encargo ético de não ser infiel para com este valor. A verdade como valor último do conhecimento implica em perceber na mentira e na falsidade imposturas éticas que conduzem o pensamento ao erro.
A ética do filósofo, tal como inaugurada em Sócrates, é a disposição que coloca o pensamento dialético a serviço da elaboração da verdade. A verdade filosófica é inicialmente tomada como uma ignorância presumida que exige a inspeção ou investigação em busca de respostas para a razão. O fundamento ético da filosofia já conjuga em si a punição pois ao se negligenciar as pistas que conduzem a verdade o espírito humano fica como que condenado ao erro e as consequentes fatalidades que isto gera no real da vida, assim, a condenação do pensamento é a própria prisão dele em erros e ilusões. Mas também na postura filosófica o pecado se faz perceber como o vício que entorpece e obscurece o ser do pensamento, e o convencimento da douta ignorância passa por perceber a natureza superior da sabedoria divina em relação à humana.
Foi, precisamente por causa dessa “inspeção”, varões atenienses, que surgiram muitos ódios contra mim, e assim tão duros e pesados, que a partir deles então muitas calúnias começaram a surgir e fui chamado desse nome de “sábio”... Pois os circunstantes toda vez pensam que eu mesmo sou sábio nas coisas a respeito das quais refuto alguém, mas corre-se o risco, varões, de na realidade o deus ser sábio, e com aquele oráculo afirmar isto: que a sabedoria humana pouco ou nada vale. Parece ainda que ele não fala aquilo de Sócrates, mas se serve do meu nome para fazer de mim um modelo, como se dissesse - “Entre vocês homens o mais sábio é qualquer um que, como Sócrates, tenha reconhecido que, na verdade, em sabedoria não vale nada”.9
O valor filosófico de Sócrates não repousa simplesmente nas suas ideias ou nos conceitos que tenha elaborado, mas na abertura existencial que o tornou digno de imitação. A verdade é o valor básico do pensamento, e o pensamento humano trabalha em função das disposições do intelecto. A intelecção é inerente à natureza humana e por meio dela se pode discernir as estruturas dos seres na realidade, bem como as disposições interiores desta natureza humana. O ser manifesta-se ao intelecto por meio da essência que configura os entes manifestos da realidade perceptível. As questões intelectualmente problemáticas envolvidas na compreensão do conceito de pecado diz respeito primeiro a noção de essência, enquanto natureza ôntica dos seres, e depois as questões fortuitas despertadas pelo arbítrio do ser desejante. Dessarte, para prosseguir com a discussão do tema vamos recorrer a uma análise hermenêutica dupla: inicialmente será utilizada como referência a linguística estrutural de Saussure10 para expor os operantes da arbitrariedade que a língua impõe aos signos utilizados nos conceitos de pecado e lei; posteriormente esclarecemos, por meio dos conceitos ontológicos, os caminhos pelos quais se pode aproximar a teologia do pecado em Paulo com as considerações modernas acerca das estruturas internas da alma.
Conforme foi elaborado no início deste tópico, a filosofia é uma certa linguagem que busca entre outras coisas a verdade orientadora do logos puro do pensamento intelectivo, por isso, cabe distinguir a linguagem filosófica, que está colocada no universalismo intelectual, da língua que, de acordo com Saussure é um conjunto convencional que se utiliza de signos arbitrários para transmitir os valores semânticos que um grupo de falantes herdou dos antepassados comuns. A língua é portanto muito maior que o indivíduo e em muitos aspectos o condiciona por meio das leis internas que geram as formações de significações e associações de ideias já impressas na lógica operante desta língua.11
Tomando a língua portuguesa como referência semântica prévia, verificamos o primeiro mal entendido em torno do conceito de pecado, que é a associação fonética dos significantes mal/mau. Pecado é mal ou mau? Já se verifica deste a palavra em si a possibilidade de confusão sintática em função da homofonia do advérbio (mal) com o adjetivo (mau). Gravitam em torno do conceito de pecado tanto o mal quanto o mau, isto implica que pode-se tomar o pecado enquanto correlato de um advérbio (algo que modifica o modo verbal) ou como adjetivo (algo que qualifica um determinado sujeito), daí procede a problemática apontada acima sobre a natureza ontológica e legal que envolve o pecar. Estando associado ao advérbio o pecado estaria desprendido da natureza do ente (do sujeito) e preso a ação ou estado condicionado no verbo, neste sentido, se pode associá-lo a ação (verbal) de tomar a árvore do conhecimento do bem e do mal; mas o que fez romper a lei não foi mal adverbial, mas o mau adjetivado no sujeito do desejo que viu a árvore proibida como boa, foi este ato que qualificou Eva enquanto o sujeito (mau) implicado no desejar: “Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento…” (Gn 3,6) portanto, mau quando adjetiva se liga às estruturas do ser pois caracteriza o algo essencial que é o ente humano, o ser mau é ter em si a disposição da maldade, seria então o correlato do conceito teológico de pecaminosidade.
Ao analisar nossa condição de criatura nota-se que nossa natureza ontológica é em si um composto de matéria e forma, sendo forma a inteligência convergente no ser que o criou. Desta maneira, o ente humano, enquanto causado por um criador, é insuficiente em si mesmo pois é a partir do que possui em si o ser que o homem ganha a substância em sua existência.12 Deus, enquanto origem ôntica de todo ser é o ser em si mesmo, o não causado, seu ser é ato puro que confere ao contingente da criatura a potência e o ato de ser entidade do real.
E, como tudo que é por outro reduz-se ao que é por si, como a uma causa primeira, é preciso que haja alguma coisa que seja causa do ser para todas as coisas, por isto que ela própria é apenas ser; de outro modo, ir-se-ia ao infinito nas causas, pois toda causa, que não é apenas ser tem causa do seu ser, como foi dito. É claro, portanto que a inteligência é forma e ser; e que tem o ser a partir do ente primeiro que é apenas ser; e este é a causa primeira que é Deus.13
O ser humano é um ente cuja natureza peculiar envolve não apenas o intelecto oriundo do ser divino, mas é alguém que se insere no domínio da fala. Enquanto ser falante o humano não tem como se libertar dos valores semânticos das leis linguísticas, tomar a palavra já é se colocar no juízo implícito dos signos da palavra. É no âmbito da singularidade humana que se insere o sujeito que fala, contudo é na ordem de uma linguagem verbal (intersubjetiva) que este sujeito precisará se adequar. A fala está implicada no pecado original, pois o desejo (proibido) da mulher só foi concebível a partir da fala da serpente: “Então a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3,4-5).
O desejo original que trouxe o pecado ao mundo tinha em si uma demanda por conhecimento, tal foi o preço da vida humana. Conhecer faz a humanidade entrar na ordem da moralidade, e a lei, ainda que racionalmente boa, passou a ser a ocasião de manifestação do pecado: “Porque, quando vivíamos segundo a carne, as paixões pecaminosas postas em realce pela lei operam em nossos membros, a fim de frutificarem para a morte” (Rm 7,5). A partir da teologia paulina percebemos que o fundamento da dialética lei/pecado reside nas “paixões da carne” (Rm 1,26), o que em última análise faz a discussão retornar ao circuito da vontade- desejo que condiciona a liberdade numa fluxo do qual o ser desejante não consegue superar o anseio que sujeita seu ser. Se tomamos a natureza criada enquanto a estrutura ontológica daquilo que está feito no real não se pode atribuir qualquer naturalidade ao pecado, pois ele é contrário ao que foi criado e só se pode pecar quando há um conflito no interior da natureza, é nesse sentido que podemos entender o que Paulo fala sobre “paixões infantes”.
3. Pecado em sua estrutura psicolinguística
Agora será necessário retomar os pontos brevemente elencados no 6° parágrafo da introdução, lá foram colocados alguns conceitos filosóficos que seguem a leitura agostiniana da moralidade cristã, o que nos permitiu localizar o pecado enquanto um fenômeno psicológico. O mal (moral) que aparece no tangível da quebra de uma lei seria a consequência objetiva do mau (concebido) na alma. O pensamento agostiniano expressa uma certa angústia hermenêutica em função de tentar compreender de onde provinha o mal/mau. Tal origem pode nos parece óbvia: seria a criatura, mas ao retratar a questão em seus pormenores ontológicos verifica-se um problema mais sutil, pois ao saber que o mal está dentro de si o homem perde seu senso de realização e seu ser livre torna-se cativo de uma vontade invertida: “Procurei o que era a maldade e não encontrei uma substância, mas sim uma perversão da vontade desviada da substância suprema - de Vós, ó Deus - e tendendo para as coisas baixas: vontade que derrama as suas entranhas (...).”14 As especulações de Agostinho o levaram a concluir que o pecado é um tipo de disputa interna da vontade, uma vontade dividida. Esta divisão é o que confere toda complexidade psicológica do mal/mau.
Assim duas vontades, uma concupiscente, outra dominada, uma carnal e outra espiritual, batalhavam mutuamente em mim. Discordando, dilaceravam-me a alma. (...) Com efeito neste já não era eu quem vivia, visto que, em grande parte, o sofria mais contra a vontade do que o praticava de livre-arbítrio. Mas, enfim, o hábito, que combatia tanto contra mim, provinha de mim, porque com atos de vontade, eu chegava onde não queria.15
O bispo de Hipona conseguiu elaborar uma noção não essencialista acerca da maldade, contudo, ele não conseguiu desvendar por quais mecanismo internos aquela vontade desviada torna-se eficaz diante da natureza (essencialmente boa) criada por Deus. Em outras palavras, resta-nos entender como a natureza dos entes que procedem do criador ficou impregnada do adjetivo mau oriundo do pecado, e porque mesmo sendo uma realidade tangível o mau (quando deslocado do ser que adjetiva) torna-se em nada absoluto. Quando o ente criado fica destituído do bem, sua natureza não deixa de ser intrinsecamente boa pois: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom” (Gn 1,31), então, por qual ocasião se faz notar a presença do mau? Seguindo a lógica da língua, torna-se mau o que volta para o contrário daquilo que é bom; por isso, pode-se dizer que a origem absoluta de todo mau é o ente posto diante do seu nada. Se é Deus a origem do ser, segue-se que somente na ausência Dele o mau é possível, mas isto redundaria em nada absoluto o ex nihilo a partir de onde Deus criou, porém, no real das coisas criadas não se pode retornar ao nada em absoluto pois: “Sei que tudo quanto Deus faz durará eternamente; nada se lhe pode acrescentar e nada lhe tirar; e isto faz Deus para que os homens temam diante dele.”(Ecl 3,14) Portanto, filosoficamente não se concebe uma natureza pecaminosa, ainda que tal seja corrente em teologia. A noção filosófica de Agostinho aponta o pecado como um não-ser, uma ausência, uma não-coisa, por isso, é o caso de analisá-lo dentro do sistema psicolinguístico que fixou o desejo na cadeia das relações humanas desde Adão e Eva.
Os pecados com suas respectivas punições não são seres, mas estados acidentais dos seres. Aqueles - os pecados - são estados voluntários, e estas - as punições - são estados penais. Mas o estado voluntário do pecado é um estado acidental de desordem vergonhosa, ao qual segue o estado penal, precisamente por colocá-lo no lugar que lhe corresponde e que não seja uma desordem dentro da ordem universal.16
A elaboração conceitual do pecado nos leva ao sujeito falante que falha, isto se desdobra interiormente por meio do sentimento de culpabilidade e por um conjunto de sintomas psíquicos, o que fez da psicanálise freudiana um prodígio para o entendimento da alma. “Freud, com sua descoberta, fez penetrar no interior do círculo da ciência a fronteira entre o objeto e o ser que parecia marcar seu limite.”17 A descoberta freudiana, conforme apontado por Lacan, foi revolucionária ao entender as leis verdadeiras que fazem o sujeito universal da linguagem operar, mesmo quando sua racionalidade trabalha por negar a si mesmo: “ou seja, não apenas às representações das quais a psicologia de escola vê apenas o absurdo - roteiro do sonho, pressentimentos, fantasias do devaneio, delírios confusos ou lúcidos.”18 O psicanalista também percebeu em sua clínica aquela vontade desviada que Agostinho percebeu nele, mas o diferencial da psicanálise foi notar a alma como um objeto de análise, o que elevou os conflitos subjetivos ao nível operacional do campo científico. O sujeito racional não é aquele que controla a si mesmo pela via da razão, é aquele que a exemplo do que fez Descartes,19 duvida de seus pensamentos óbvios e por meio desta divisão discursiva, o filósofo que elaborou o cogito procura não a si mesmo, mas a verdade de si mesmo. Por meio do sujeito científico, a verdade socrática novamente entra em evidência e, ao sair dos escombros do pensamento platônico, se reinventa nos abalos narcísicos que a modernidade infligiu às seguranças metafísicas dos medievais.
O que temos a salientar é que pretendemos trilhar a posição científica, analisar de que modo ela já está implicada o que há de mais íntimo na descoberta psicanalítica. Essa reforma do sujeito, que é aqui inauguradora, deve ser relacionada com a que se produz no princípio da ciência, comportando esta última um certo adiamento no que tange às questões ambíguas a que podemos chamar questões da verdade.20
A ambiguidade é o lugar a partir de onde o conceito de pecado se mostra mais evidente, o fato onde teologia, filosofia e epistemologia científica se encontram é exatamente no enigma da vontade dirigida contra si mesma. O que nos leva a concluir que a teologia torna-se mais objetiva na medida em que cresce sua verdade inclusiva que assinalou todos os humanos no verdadeiro lugar do nós: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8).
Ao analisarmos o pecado a partir da estrutura significante que liga o nós ao eu do sujeito (dividido pela vontade) encontramos como princípio a linguagem que figura o objeto na fantasia mobilizadora do desejo, é a fantasia e não o objeto aquilo que fixa o desejo.21 A mutabilidade do desejo acompanha as proibições que incidem sobre um certo objeto, o encanto da fantasia é o que leva o desejo e as perturbações que sofre para fora do campo objetivo fazendo - o se fixar na impossibilidade simbolizado no elemento da proibição.
Vamos agora resumir em que pontos a concordância entre os costumes do tabu e os sintomas da neurose obsessiva se manifestam mais claramente: 1. na ausência de motivos para os preceitos, 2. em sua reafirmação por uma necessidade interior; 3. em seu caráter deslocável e no perigo de contágio pelo proibido; 4. no fato de originarem ações cerimoniosas, preceitos que advêm das proibições.22
É na dialética da fantasia que o desejo aparece na linguagem interna do pecado. É o fantasma da fantasia que prende e se torna o dilacerador da carne já que não tem realidade ontológica. A dinâmica autofágica do pecado se torna mais clara quando o observamos a partir dos sintomas psicológicos analisados por Freud,23 ele foi perspicaz em perceber a força dominante do desejo na vida afetiva, social e cultural dos homens. O conhecimento do homem psicologicamente enfermo do século XX foi uma ferramenta fundamental para tornar a ciência da alma segura de si, mas os fantasmas que preenchem as angústias da alma estão conjugados na língua, e, como a ciência não consegue operar fora da linguagem que a regulamenta, segue-se que o conceito de pecado também entra como sombra na realidade da alma tal como foi cientificamente elaborada. Como está dito em Tiago (Tg 3,6) o pecado é sintoma linguisticamente determinado e só deixa de operar quando algo vem romper a “sabedoria terrena, animal e demoníaca” que lhe dá origem. Conforme a elaboração lacaniana24 pode-se entender que a cadeia significante é uma ordem psico-linguística porque o falante, para fazer aparecer o fantasma do desejo, depende de uma língua anterior a sua existência individual e ele mesmo, enquanto sujeito linguístico, constitui uma curva nesta língua na medida em que imprime, por seus anseios subjetivos, algo de singular na cadeia significante que elabora.
O sintoma só é interpretado na ordem do significante. O significante só tem sentido por sua relação com outro significante. É nessa articulação que reside a verdade do sintoma. O sintoma tinha um ar impreciso de representar alguma irrupção da verdade. A rigor, ele é verdade, por ser talhado na mesma madeira de que ela é feita, se afirmarmos materialisticamente que a verdade é aquilo que se instaura a partir da cadeia significante.25
A partir da filosofia psíquica de Agostinho26 e da psicanálise pode-se elaborar o conceito de pecado como tendo uma dupla face: primeiro vê-se que sua origem é o interior da alma onde o desejo (concupiscentia) faz concebe a ilusão no ser, tal ilusão ganha um corpo no real por meio da fantasia que direciona o desejo a algum objeto, tal objeto (revestido da fantasia) torna-se manipulável e assim pelo uso do objeto27 proibido se condiciona o sujeito do desejo, por fim tem-se a cadeia significante da lei que interdita o objeto fantasiado e encerra-se assim com a culpabilidade que dilacera a carne diante daquilo que lhe parecia bom, mas veio a mostrar-se irreal e por isso mal: “Quanto ao perverso, as suas iniquidades o prenderão, e com as cordas do seu pecado será detido.” (Pv 5,22)
Todos estes homens que citastes e que perseguem objetos tão diversos, todos desejam o bem e fogem do mal, se eles trabalham para conseguir coisas tão diversas, é porque cada um tem um conceito distinto daquilo que é o bem. Assim, aquele que deseja o que não deveria desejar, se equivoca, embora realmente não desejasse se não lhe parecesse bom. Apenas não estaria no erro aquele que nada deseja ou que deseja o que se deve desejar. Por conseguinte, nenhum homem erra quando deseja a vida feliz. O erro de cada um consiste em que, confessando e proclamando que não deseja outra coisa que chegar à felicidade, não segue, porém, o caminho da vida que a ela conduz. O erro está, pois, em que, seguindo um caminho, sigamos aquele que não conduz para onde desejamos chegar.28
Portanto, pode-se verificar que não é o desejo em si que conduz o homem ao pecado, mas é a dialética do mal (vontade desviada) que torna a alma escravizada ao complexo jogo de irrealidade do pecado que torna abominável a natureza do ser desejante, ainda que essencialmente boa esta natureza desejante direciona-se para o nada da linguagem maligna. Vejamos novamente o relato bíblico: “Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3,4-5), todo o desvio da vontade de Eva teve eficácia somente depois da fala do maligno, mas o que tornou esta fala tão maligna? Foi com a falsificação da verdade que o maligno operou sua eficácia diante do real criado, explicando melhor: a primeira frase da antiga serpente é uma mentira, pois foi certo que Deus disse: “no dia em que dela comeres, certamente morrerás,” (Gn 2,17), mas a segunda parte da tentação é o algo que imita o verdadeiro, pois de fato Deus tinha conhecimento do bem e do mal e de fato quando Adão e Eva comeram do fruto os olhos deles se abriram: “Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si” (Gn 3,7). No entanto, o encanto linguístico da serpente foi venenoso já que omitiu a morte certa que não poderia ser superada mesmo o homem tendo se tornado como Deus: “Então, disse o SENHOR Deus: Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal, assim, que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente.” (Gn 3,22)
O mal é o pecado da linguagem que está impregnada na sinuosidade astuta de Satanás, nesta linguagem o sujeito fica preso ao desejo fantasioso que um outro inventou (Jo 8,43-44). Por isso, em última análise, a origem do mal não foi a primeira mulher, mas o diabo (fantasiado) de serpente. Um ser de linguagem é a origem primeira e última do mau (que adjetiva), só depois que o ente assim adjetivado manifestou seu desejo é que o bem e o mal puderam ser racionalizados e tornado em lei para a condição mortal dos filhos de Adão e Eva. O que revela a fala da antiga serpente? Revela o desejo do diabo que era a morte de Adão e Eva, por isso Cristo disse que ele foi homicida desde o princípio e a arma do seu homicídio foi a mentira. Por fim, resta uma última e mais espinhosa questão: por que o diabo pecou, se ele era ser de luz? (Is 14, 12) Ele pecou não pelo desejo desviado tal como Eva, o pecado do diabo foi a mentira, foi a negação do ser criado em função de uma invenção da criatura: “Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é pai da mentira.” (Jo 8,44), eis o enigma da obscuridade semântica da malignidade, somente o Logos (Verbo) (Jo 1,2-3) divino poderia libertar a criação do jugo pegajoso daquela mentira certeira. O Ser divino se revelou em semelhança de carne desejante e assim pode-se conhecer a verdade que liberta: “Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso. E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo. Isto dizia, significando que gênero de morte estava para morrer.” (Jo 12,31-32)
4. Liberdade da alma e a dialética pecado-lei
O enigma do pecado pode ser elaborado a partir da seguinte questão: como foi possível a natureza dos entes criados bons se corromper na malignidade? Normalmente se vê o mau do pecado apenas nas consequências mortíferas as quais ficou sujeita toda criação, mas para além dos aspectos externos, que apodrecem quando a carne e os seres orgânicos morrem, segue-se uma agonia espiritual que Paulo descreveu de modo dramático (Rm 8,22-23). Para entender o lugar impregnante que o pecado adquiriu deve-se retomar a linguagem que o tornou possível. Como disse Freud,29 a mente consciente do homem é como uma epiderme, apenas um pele de percepções imediatas que recobre uma mar de afetos, pensamentos e impulsos que compõem a linguagem associativa do inconsciente. O princípio inconsciente foi dissecado por Freud, mostrando que o núcleo significativo da alma reside na vida autônoma que mobiliza os desejos. Mas como a psicanálise foi capaz de reconhecer a origem do pecado sem recorrer a qualquer divindade e nem devendo nada às religiões organizadas? Foi ao dissecar o ser psíquico presente na fala dos sintomas que Freud conseguiu se aproximar do enigma da alma que coincide com a origem do pecado.
Tendo nos decidido pela dissecção topológica do aparelho psíquico em Eu e Id, a que corresponde a diferenciação entre qualidade pré-consciente e inconsciente, e tendo essa qualidade apenas como indicação da diferença, não como sua essência, em que consiste então a autêntica natureza do estado que no Id se revela pela qualidade do inconsciente, no Eu pela do pré-consciente, e em que reside a diferença entre os dois? Quanto a isto nada sabemos, e nossas poucas percepções se destacam tristemente do escuro pano de fundo dessa ignorância. Nisso nos aproximamos do autêntico enigma, ainda não desvendado, da coisa psíquica.30
O ser psíquico só é cientificamente acessível pela linguagem, é possível recortá-lo a partir dos momentos de fixação do prazer no corpo desde a infância até a morte da alma nos sintomas que prendem em cadeias mórbidas o ser que já não tem a seu dispor o prazer do ‘paraíso’ perdido. Entre a mortalidade e os anseios de imortalidade vive a alma racional e mesmo com as espetaculares obras platônicas o pensamento só consegue se libertar com a verdade não oracular do fim da cadeia significante que orientou o pecado. Mas o maior problema é que o ser é para o humano o maior dos mistérios, ainda que ele seja no que é.
Trata-se aqui daquele ser que só aparece no lampejo de um instante no vazio do verbo ser, e eu disse que ele formula sua questão ao sujeito. Que significa isso? Ele não a coloca diante do sujeito, mas coloca-a no lugar do sujeito, ou seja, nesse lugar, ele coloca a questão com o sujeito, tal como se enuncia um problema com uma caneta e como o homem de Aristóteles pensava com sua alma.31
O sujeito elaborado cientificamente é aquele que procura conciliar seu ser com as exigências do tempo que nele faz vibrar qualquer coisa parecida com uma energia psíquica. A fonte ontológica do ser é aquilo que não se move no tempo e está sempre aí para quem queira ver, porém, é imperioso que nos mistérios do ser os afetos sejam colocados como o princípio de todo o juízo espiritual. A causa do pecado não foi moral, portanto seu julgamento não repousa sobre a normatividade punitiva, isso implica dizer que o pecado continua em sua origem: nos afetos que se encarregam em fantasiar qualquer objeto naquilo que ele não é. A impossibilidade presente na fantasia do desejo é o que garante a carne um momento de prazer efêmero (esta é a eficácia de satanás: o breve prazer que a carne tem quando acredita no irreal da fantasia, ou na mentira produzida em um outro) foi por esta via que caminhou a cobiça de Eva, foi quando ela viu o que não havia que, no real da proibição, nasceu a vergonha que descobriu a nudez do ser.
Porque o homem sente vergonha da nudez? A nudez não revela apenas o sexo, revela também a nulidade do ser criado. Em que consiste a nudez? Consiste em ver a carne viva. E de onde vem a carne? Segundo a bíblia, veio do pó da terra. E de onde procedeu a terra? De Deus (Gn 1). E de onde procede Deus? De nada, de ninguém pois Ele é a origem. A nudez é a primeira ponta do nó que conduz o conhecimento ao vazio do Ser, a descoberta da nudez é a percepção do vazio inerente à linguagem maligna, foi esta linguagem que levou a humanidade a visualizar a própria nudez do criador. A nudez do criador é o nada absoluto, onde razão nenhuma consegue raciocinar e nesta nudez o homem encontra sua origem e seu fim último. Por fim observamos que a linguagem é a ponte que nos leva ao abismo do pensamento em si, o pensar absoluto leva ao nada de si, porém como o tempo (devir) que em nós opera o Ser não pode retroagir, segue-se que a religação a Deus é para o pensamento como o martírio presente na estrutura da loucura: “Loucura, já não sois o objeto do elogio ambíguo em que o sábio instalou a caverna inexpugnável de seu medo. Se ali, afinal, ele não está muito mal instalado, é porque o agente supremo que escava desde sempre suas galerias e seu dédalo é a própria razão, é o mesmo Logos a que ele serve.”32
A liberdade que deu ocasião ao pecado é exatamente a mesma que está revelada na consciência individual. O pecado é a angústia objetiva do ser33 que só pode se revelar a si depois de se ver no espelho narcísico34 do monstro da linguagem, foi da linguagem paterna que nasceu a ocasião subjetiva de um ser manifesto através do língua desejante materna, só na verdade desta dependência original é que a possibilidade de ser livre se mostra ao indivíduo, por isso: “Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa.” (Ef 6,2) O conhecimento do bem e do mal escravizou a humanidade a morte, mas o que libertaria? O Ser é o que liberta. O ser que é o humano já aparece esboçado na verdade do desejo de Eva: “e, como Deus, sereis.” (Gn 3,5)
Ser como Deus é o núcleo significante do desejo proibido e, note o paradoxo: é a partir dele que se pode ser livre de toda proibição. Se há liberdade na religião ela só o é a partir dos afetos que impregnam o ser do desejo: “Aquele que só tem conhecimento doutrinal e especulativo, sem afeições, jamais se compromete com a religião. Com efeito, nada é mais patente do que as coisas da religião se apoderam da alma do ser humano tanto quanto a influenciam.”35
Alcançar o conceito da liberdade proposta na teologia cristã passa por compreender a síntese existencial realizada em Paulo: “assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; em amor nos predestinou para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1,4-5). Vê-se nesta passagem duas palavras chave para entender a eleição que liberta o pecador: primeiro o amor e segundo a vontade de Deus. O amor é o desejo que se dirige ao essencial do ser, o que destrói o poder destrutivo da lei é algo mais forte que a morte, algo que tem poder de sustentar a vida fora de toda lei: “Agora, porém libertados da lei, estamos mortos para aquilo a que estávamos sujeitos, de modo que servimos em novidade de espírito e não na caducidade da letra” (Rm 7,6).
Agora, cabe analisar o amor enquanto vontade, tal é a ênfase da tese de Arendt que coloca o amor divino como operante também na dimensão do desejo: “Amor de Deus e amor a si caminham lado a lado e não se contradizem. No amor de Deus, o homem ama-se a si próprio, ao homem que há-de vir, na pertença desejada a Deus, logo, a si mesmo enquanto aquilo que será eterno.”36 Ao estabelecer o amor como a forma de cumprir a lei, vemos o porquê da moralidade cristã ser socialmente impraticável, isso ocorre porque as normas sociais não conseguem reprimir o pecado, e é em função deste fato que a repressão se tornou parte do sujeito da linguagem. A ambiguidade da lei é que ela já engaja o sujeito na transgressão, por isso o amor (enquanto desejo) é a única forma de superar o desejo (legal) que empurra ao pecado. A verdadeira moralidade cristã é a morte da linguagem do pecado através do entendimento da linguagem do Espírito. A moral absoluta é aquela operada desde dentro do espírito humano a partir de um Outro espiritual maior que ele e maior que a moral em si, tal moralidade representa o esgotamento da racionalidade objetiva do complexo lei-pecado, o que nos leva de volta a teologia paulina expressa a seguir: “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. Pois está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos instruídos.” (1Co 1,18-19)
Conclusão
Para concluir proponho retomar os principais pontos desta discussão. Conforme colocado no tópico 1, a moralidade ocidental conseguiu mostrar o lugar paradoxal que o pecado exerce na vida individual e social do homem, sobretudo por ser um elemento da linguagem o pecado consegue ser universal, ainda que particularizado em cada caso específico. Os movimentos políticos modernos só assumiram um caráter messiânico por conta da influência indelével da moral do pecado impregnada no fundo de toda cristandade, mesmo a que se secularizou. Conclui-se que a dialética segunda a qual se opera o jogo pecado – lei - punição é a base que sempre se repete no conjunto da vida cultural dos povos cristianizados. Até na operação dos erros ideológicos do pensamento autogratificante vemos a presença avassaladora do desejo que, mesmo no disfarce dos fetiches, mostra-se sempre como a ganância da criatura em ser tão absoluta em si quanto o é o criador.
No segundo tópico analisamos o pecado dentro do universalismo dos conceitos filosóficos, e verificamos que a ética é essencialmente uma postura individual que busca ver a verdade. Mas só se procura aquilo que não se tem em evidência, isto significa que os homens só ergueram a verdade como valor porque ela escapou do pensamento. A verdade se esconde, mas onde e porquê? Na postura filosófica socrática somos postos diante de uma verdade que é ela mesma o esconderijo do ser, que só se revela ao pensamento através dos penosos caminhos da renúncia da ilusão. Assim, chegamos ao que foi tratado no tópico 3, a partir de onde pode-se concluir que a obscuridade do pensamento escondido no ser pensante (cogito) cartesiano foi o caminho por onde se tornou possível mostrar que a ilusão é obra da linguagem. A metafísica, posta em andamento pelo gênio de Descarte, evidenciou no jogo daquele ‘deus maligno’ como a dialética do desejo começaria a ser desvendada, mas foi na hermenêutica dos ‘corpos’ psíquicos da psicanálise que fomos apresentados a caverna de ilusões imaginárias que operam e fixam a morte nos atos subjetivos até o ponto de elucidação da cadeia do sintoma enquanto significante proposta na teorização lacaniana.
Por fim, cabe sublinhar o valor da teologia paulina e assinalar como o apóstolo dos gentios soube antecipar conceitos da alma cientificamente dissecada nos discursos da linguagem. Em Paulo pode-se compreender a condição existencial da liberdade; é a superação da lógica mortal da lei-pecado-punição: “Portanto, agora, nenhuma condenação há para aqueles que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o espírito” (Rm 8,1). A liberdade do ser é a possibilidade impressa na novidade (de vida) que rompe os ciclos de repetição que encadeiam o significante no sintoma da carne que morre, ser livre é não morrer continuamente, por isso só a vida eterna é livre. Fica pois, para as pesquisas futuras, o encargo de analisar os conceitos teológicos de eternidade e como tais se aplicariam ao sujeito submetido ao devir do tempo.
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1DAWSON, C., Criação do Ocidente, p. 36-37.
2 DAWSON, C., Criação do Ocidente, p. 52.
3 DAWSON, C., A divisão da cristandade, p. 43.
4 WEBER, M., A ética protestante e o espírito do capitalismo, p. 26.
5 MENDES, E. C., A teologia política de João Calvino (1509-1564) Na Institutas da Religião Cristã (1536), p. 62.
6 AGOSTINHO, Sobre o livre-arbítrio, livro III, III. 8.
7 FREUD, S., O mal-estar na cultura, p. 99-100.
8 HEIDEGGER, M., Que é isto - A filosofia? p. 35.
9 PLATÃO, Apologia de Sócrates precedido de Êutifro (Sobre a piedade) e seguido de Críton (Sobre o dever), p. 76.
10 SAUSSURE, F., Curso de linguística geral, p. 13-14.
11 AUSSURE, F., Curso de linguística geral, p. 21.
12 ST, O ente e a essência, Capítulo II, 16.
13 ST, O ente e a essência, Capítulo IV, 55.
14 AGOSTINHO, Confissões, livro VII, 16.
15 AGOSTINHO, Confissões, livro VIII, 5.
16 AGOSTINHO, Sobre o livre-arbítrio, livro III, IX.26.
17 LACAN, J., A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud, p. 532.
18 LACAN, J. Para além do “Princípio de realidade”, p. 85.
19 DESCARTES, R., Discurso do método, p. 38.
20 LACAN, J., Do sujeito enfim em questão, p. 234.
21 LACAN, J., O seminário, livro 6, p. 28.
22 FREUD, S., Totem e tabu [1912-1913], p. 57.
23 FREUD, S., O interesse da psicanálise (1913), p. 358.
24 LACAN, J., O seminário, livro 6, p. 24.
25 LACAN, J., Do sujeito enfim em questão, p. 235.
26 Utiliza-se o termo filosofia psíquica porque as considerações a seguir se baseiam principalmente na parte 1 do texto das Confissões de Santo Agostinho, tem-se em mente o fato destes relatos serem de natureza essencialmente autobiográfica com muitos insights filosóficos, e ainda que considerando - o a partir de uma psicologia pré-científica já se percebe nestes trabalho um esforço que elabora conceitos metapsicológicos, o que insere o pensamento agostiniano no amplo campo de estudo do psiquismo humano.
27 Aqui não de trata do objeto em seu sentido epistêmico, nem é da coisa que se oferece aos sentidos, mas é a essencialidade imaginária da fantasia que se reveste de um motivo externo, tal como ocorreu com o fruto da árvore proibida que não era em si mesmo a tentação, pois Deus pôs o fruto lá e como se disse: “Deus não pode ser tentado pelo mal e ele a ninguém tenta” (Tg 1,13).
28 AGOSTINHO, Sobre o livre-arbítrio, livro II, IX. 26.
29 FREUD, S., Compêndio de psicanálise (1940 [1938]), p. 212.
30 FREUD, S., Compêndio de psicanálise (1940 [1938]), p. 214.
31 LACAN, J., A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud, p. 524.
32 LACAN, J., A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud, p. 531.
33 KIERKEGAARD, S. A., O conceito de angústia, p. 64-65.
34 LACAN, J., Formulações sobre a causalidade psíquica, p. 189.
35 EDWARDS, J., Afeições religiosas, p. 25.
36 ARENDT, H., O conceito de amor em santo Agostinho, p. 34.

