Programação de notícias - Semana 2
> Brasil e o mundo global > [ler a luz de textos literários] > sequência – linguística
2.1.1 – Português [Lima Barreto]
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[Lima Barreto]
Os Bruzundangas
I – Um grande financeiro
“A República dos Estados Unidos da Bruzundanga tinha, como todas as repúblicas que se prezam, além do presidente e juízes de várias categorias, um Senado e uma Câmara de Deputados, ambos eleitos por sufrágio direto e temporários ambos, com certa diferença na duração do mandato: o dos senadores, mais longo; o dos deputados, mais curto. O país vivia de expedientes, isto é, de cinquenta em cinquenta anos, descobria-se nele um produto que ficava sendo a sua riqueza. Os governos taxavam-no a mais não poder, de modo que os países rivais, mais parcimoniosos na decretação de impostos sobre produtos semelhantes, acabavam, na concorrência, por derrotar a Bruzundanga; e, assim, ela fazia morrer a sua riqueza, mas não sem os estertores de uma valorização duvidosa. Daí vinha que a grande nação vivia aos solavancos, sem estabilidade financeira e econômica; e, por isso mesmo, dando campo a que surgissem, a toda hora, financeiros de todos os seus cantos e, sobretudo, do seu parlamento. Naquele ano, isso há dez anos, surgiu na sua Câmara um deputado que falava muito em assuntos de finanças, orçamentos, impostos diretos e indiretos e outras coisas cabalísticas da ciência de obter dinheiro para o Estado. A sua ciência e saber foram logo muito gabados, pois o Tesouro da Bruzundanga, andando quase sempre vazio, precisava desses mágicos financeiros, para não se esvaziar de todo. Chamava-se o Deputado Felixhimino Ben Karpatoso. Se era advogado, médico, engenheiro ou mesmo dentista, não se sabia bem; mas todos tratavam-no de doutor. O Doutor Karpatoso tinha uma erudição sólida e própria em matéria de finanças. Não citava Leroy-Beaulieu absolutamente. Os seus autores prediletos eram o russo-polaco Ladislau Poniatwsky, o australiano Gordon O’Neill, o chinês Ma-Fi-Fu, o americano William Farthing e, sobretudo, o Doutor Caracoles y Mientras, da Universidade de Caracas, capital da Venezuela, que, por ser país sempre em bancarrota, dava grande autoridade ao financista de sua principal universidade. O físico do deputado era dos mais simpáticos. Tinha um ar de Gil-Blas de Santillana, em certas ilustrações do romance de Le Sage, com as suas barbas negras, cerradas, longas e sedosas, muito cuidadas e aparadas a tesoura diariamente. A tez era de um moreno espanhol; os cabelos, abundantes e de azeviche; os olhos, negros e brilhantes; e não largava a piteira de âmbar, com guarnições de ouro, onde fumegava sempre um charuto caro. O seu saber em matéria de finanças e economia política determinava a sua constante escolha para relator do orçamento da receita. Era de ver como ele escrevia um substancial prefácio ao seu relatório. Não me recordo de todas as passagens importantes de alguns deles; mas, de certas, e é pena que sejam tão poucas, eu me lembro perfeitamente. Eis aqui algumas. Para o orçamento de 1908, o Doutor Karpatoso escreveu o seguinte trecho profundo: “Os governos não devem pedir às populações que dirigem, em matéria de impostos, mais do que elas possam dar, afirma Ladislau Poniatwsky. A nossa população é em geral pobríssima e nós não devemos sobrecarregá-la fiscalmente.” Não impediu isso que ele propusesse o aumento da taxa sobre o bacalhau da Noruega, pretextando haver produtos similares nas costas do país.
[p. 23-24]
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[0001] Jornal Gazeta do Povo
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[Hora de Brasília – > 22/02/2026 = 05/12/5786 = 06/10/1447]
<Indígenas invadem terminal da Cargill em Santarém (PA) em protesto contra decreto de Lula>
21/02/2026 às 22:00, Atualizado em 22/02/2026 às 09:46 - Um grupo de indígenas invadiu, na madrugada deste sábado (21), os escritórios da multinacional agrícola Cargill no porto de Santarém (PA) em protesto contra o decreto do governo Lula (PT) que inclui as hidrovias dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no Programa Nacional de Desestatização (PND). O Decreto 12.600, de agosto de 2025, pretende facilitar o transporte fluvial de grãos em rios amazônicos por meio de obras de dragagem. Manifestações também ocorreram em frente à sede da empresa em São Paulo. Em nota, a multinacional classificou as duas ações como “violentas”. "A Cargill confirma que na noite de ontem, 20 de fevereiro, duas ações violentas promovidas por manifestantes atingiram os ativos da empresa. No escritório central da empresa, em São Paulo (SP), um grupo de pessoas vandalizou a fachada do edifício”, diz o comunicado. “Horas depois, o terminal portuário de Santarém (PA), que há 30 dias tinha sua portaria de caminhões bloqueada por grupos indígenas, foi invadido pelos manifestantes”, acrescentou a empresa. Segundo a Cargill, os funcionários que estavam trabalhando, diante da invasão iminente, buscaram abrigo em um local fechado onde permaneceram até serem retirados do local em segurança. A multinacional ressaltou que “segue em contato com as autoridades para que as providências para a desocupação sejam tomadas de forma ordeira e segura”. As organizações indígenas afirmam que o decreto autoriza o uso de explosivos para retirar rochas do leito do Tapajós e de outros cursos d'água amazônicos. Os ecologistas temem que as detonações possam matar a fauna da região. O Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), que representa 14 povos do Baixo Tapajós, afirmou que a invasão ocorreu após "um mês completo de silêncio institucional e ausência de respostas concretas" às suas demandas. “Nossa decisão não foi impulsiva nem violenta. Foi construída coletivamente, a partir da escuta dos mais velhos, de análises jurídicas e políticas e da indignação diante do Decreto nº 12.600, assinado pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que autoriza a privatização e concessão de trechos estratégicos dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira”, disse a entidade, em um carta aberta divulgada neste sábado.
Na carta, os indígenas asseguram que estão abertos ao diálogo, mas que permanecerão mobilizados até que haja um "compromisso concreto" para revogar o referido decreto. O grupo considera que a Cargill seria uma das grandes beneficiadas por essas obras de dragagem. A companhia sempre rejeitou qualquer responsabilidade no projeto das hidrovias e apresentou diversas ações na justiça para tentar solicitar o levantamento do bloqueio de seu cais. Associação Brasileira dos Terminais Portuários diz que protestos são “inaceitáveis”
Em nota, a Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP) repudiou “com veemência os atos de violência ocorridos nas últimas 24 horas que resultaram na invasão, depredação e ocupação irregular do Terminal Portuário de Santarém (PA)”.
“Os episódios configuram ações inaceitáveis e incompatíveis com qualquer forma legítima de reivindicação”, disse a associação, destacando que as demandas dos indígenas são de “competência exclusiva” do Poder Público.
“Portanto, direcionar atos de violência contra uma empresa privada que não possui ingerência sobre a pauta apresentada é improdutivo e desvirtua o legítimo espaço democrático de diálogo, além de enfraquecer o processo institucional adequado para tratar tais temas”, acrescentou.
Bancada do agro condena invasão
Em nota oficial divulgada na manhã deste domingo (22), a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) classificou a invasão do terminal da Cargill como “um ato ilegal e incompatível com o Estado Democrático de Direito”. “A ocupação forçada de instalações privadas extrapola qualquer forma legítima de manifestação e configura prática inadmissível, sobretudo quando busca impor paralisação coercitiva de atividades essenciais”, diz a nota, assinada pelo presidente da FPA, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR).
“O ordenamento jurídico brasileiro garante o direito de manifestação, mas não autoriza a invasão de propriedade nem a interrupção forçada do funcionamento de empresas”, prossegue a nota.
Governo rebateu críticas e abriu negociação; entidade cobrou coerência de Lula
O governo enviou representantes ao Pará e rebateu as críticas dos indígenas. No último dia 6, o Executivo afirmou que as obras de dragagem “constituem ação de rotina” e são feitas para "garantir o tráfego fluviário na Hidrovia do Tapajós diante dos períodos de baixa das águas".
“Ou seja, essas obras não têm relação com os estudos de concessão da hidrovia, previstos no Decreto 12.600”, diz o comunicado. “Como gesto de negociação com os povos indígenas”, o pregão eletrônico para contratação de empresa que faria a dragagem foi suspenso. Além disso, foi instituído um grupo de trabalho interministerial, com participação de entidades da sociedade civil, para discutir o tema. O Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita)
cobrou “coerência” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
“O governo federal tem feito bonitos discursos sobre a preservação da Amazônia, mas somos nós que estamos cumprindo esse dever constitucional, que é pressuposto da nossa existência. O rio é nosso sangue”, disse a entidade.
“Por que assinar um decreto que favorece apenas o agronegócio e interesses estrangeiros? Por que continuar avançando sobre territórios originários violando nossos direitos duramente conquistados?”, questionou a entidade.
Justiça determinou desbloqueio do terminal da Cargill
No último dia 13, um juiz federal determinou o fim do bloqueio do cais em 48 horas. O Ministério Público Federal (MPF) recorreu e conseguiu derrubar a decisão, mas o recurso foi anulado no domingo (15) e a decisão inicial voltou a valer. A Justiça ordenou novamente a desocupação em 48 horas nesta quinta (19). Os indígenas assinalaram na carta que liberaram as vias de forma pacífica para que se restabeleça o fluxo de mercadorias, embora tenham reafirmado que continuarão com o protesto.
Neste sábado (21), a Justiça Federal negou um pedido da Cargill para desocupar o escritório da empresa no porto de Santarém à força. O juiz considerou que a solicitação da força policial, sem um “plano operacional estruturado e sem diálogo com os atores envolvidos, apresenta risco concreto de agravamento do conflito”. (Por Camila Abrão com Agência EFE)
→ link (acessado 22/02/2026): https://www.gazetadopovo.com.br/economia/indigenas-invadem-terminal-cargill-santarem-prote sto-contra-decreto-de-lula/?ref=veja-tambem
[0002] Jornal Gazeta do Povo
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[Hora de Brasília – > 22/02/2026 = 05/12/5786 = 06/10/1447]
<Após captura de Maduro, Venezuela aceita cooperar com os EUA no combate ao narcotráfico>
Por Isabella de Paula, com Agência EFE 19/02/2026 às 12:37 - O regime em vigor na Venezuela firmou um compromisso com os EUA de cooperar no combate ao narcotráfico na região durante uma reunião em Caracas entre a ditadora interina do país sul-americano, Delcy Rodríguez, e o chefe do Comando Sul dos EUA, Francis Donovan, informou o ministro da Comunicação venezuelano, Miguel Ángel Pérez Pirela.
“Ambos os países concordaram em trabalhar na elaboração de uma agenda de cooperação bilateral para a luta contra o tráfico de substâncias ilícitas” e o terrorismo, bem como para abordar juntos a migração, declarou o ministro venezuelano na rede social X.
Inicialmente, Pérez Pirela disse em sua mensagem que também havia sido acordada uma luta conjunta contra o terrorismo, mas posteriormente a excluiu.
Os ministros da Defesa e do Interior da Venezuela, Vladimir Padrino López e Diosdado Cabello, respectivamente, também estavam na reunião, segundo o ministro da Comunicação.
“O encontro confirma que o caminho diplomático deve ser o mecanismo para resolver divergências e abordar questões de interesse bilateral e regional, de interesse para todas as partes”, acrescentou.
A encarregada de negócios dos EUA no país caribenho, Laura Dogu, indicou anteriormente que a visita de Donovan foi concluída nesta quarta-feira, após se reunir “com as autoridades interinas para avaliar a questão da segurança, garantir a implementação do plano de três fases” do presidente Donald Trump e “avançar no objetivo de uma Venezuela alinhada com os EUA”.
O plano ao qual Dogu se referiu tem, segundo Washington, três fases para a transição na Venezuela, após a captura do ditador Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, no último dia 3 de janeiro, em meio a um ataque de tropas militares americanas a Caracas e três regiões próximas.
As três fases seriam a estabilização do país e a restauração da segurança, a recuperação da economia e uma transição para uma “Venezuela amigável, estável, próspera e democrática”.
De acordo com outra publicação da embaixada na rede social X, o general Donovan, no cargo há duas semanas, reiterou às autoridades de Caracas o compromisso de seu país “com uma Venezuela livre, segura e próspera, em benefício do povo venezuelano, dos EUA e do hemisfério ocidental”.
Na mesma rede social, o Comando Sul classificou como “produtivas” as reuniões com as autoridades venezuelanas, das quais também participaram a encarregada de Negócios e o subsecretário adjunto de Defesa Nacional dos EUA, Joseph M. Humire.
“O Comando Sul está comprometido em promover a Estratégia de Segurança Nacional e a Estratégia de Defesa Nacional, trabalhando em colaboração com os países parceiros para construir um futuro seguro e próspero para o hemisfério”, acrescentou a divisão militar na mesma rede social.
O regime de Delcy Rodríguez mantém contatos estreitos com os EUA, voltados principalmente para recuperar as relações diplomáticas, que estavam rompidas desde 2019, e revitalizar a indústria petrolífera do país sul-americano.
Donovan visitou a Venezuela uma semana depois do secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, com quem Delcy assinou um acordo energético de longo prazo cujos detalhes ainda são desconhecidos.
→ link (acessado 22/02/2026): https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/apos-captura-de-maduro-venezuela-aceita-cooperar-com-os-eua-no-combate-ao-narcotrafico/
[0003] Jornal Gazeta do Povo
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[Hora de Brasília – > 22/02/2026 = 05/12/5786 = 06/10/1447]
<Como a reação de Trump à derrubada do “tarifaço” afeta o Brasil >
Por Vandré Kramer, Brasília, 21/02/2026 às 21:20 - Há um misto de alívio e incerteza entre os exportadores brasileiros, que nesta sexta-feira (20) viveram dois cenários opostos: a Suprema Corte derrubou o tarifaço de Donald Trump, mas no final do dia a Casa Branca usou outros meios para dificultar a entrada de produtos estrangeiros nos Estados Unidos.
Poucas horas após a derrota judicial, Trump anunciou uma nova sobretaxa de 10% sobre quase todas as importações, com base na Seção 122 da Lei Comercial de 1974. O dispositivo permite ao Executivo instituir tarifas emergenciais por até 150 dias, sem autorização legislativa imediata, para proteger as contas externas do país.
Neste sábado (21), o percentual foi elevado para 15%. As novas tarifas entram em vigor na terça-feira, 24 de fevereiro, mas têm limite de cinco meses — após esse período, o governo precisará buscar aprovação do Congresso para mantê-las.
Para Monica Araújo, economista-chefe da InvestSmart XP, a rapidez da reação aprofunda a incerteza. "O dia foi marcado por grande reviravolta — a decisão da Suprema Corte e a reação de Trump. De qualquer forma, há um aumento significativo da insegurança jurídica nos EUA, nos acordos comerciais firmados e na reindustrialização prometida por Trump", avalia.
Outras barreiras seguem vigentes, e o comércio bilateral sentiu o impacto
Além das tarifas derrubadas pela Suprema Corte, outras medidas seguem afetando o comércio com os EUA — segundo maior destino das exportações brasileiras.
Ainda em fevereiro do ano passado, semanas após a posse de Trump, as alíquotas sobre aço e alumínio foram ampliadas. Uma sobretaxa posterior elevou a alíquota mínima para 50%, anunciada sob a justificativa de que o Brasil teria adotado ações que, segundo Washington, ameaçam a segurança nacional — incluindo interferências na economia, violações à liberdade de expressão e perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), alvo de ações judiciais no Brasil.
Negociações diretas entre Trump e o presidente Lula (PT) resultaram em revisão parcial das tarifas. Um encontro previsto para março pode avançar na retirada de restrições adicionais, especialmente sobre produtos industrializados.
O resultado desse ambiente de tensão aparece nos números. As exportações brasileiras para os EUA recuaram 6,7% no ano passado, atingindo US$ 37,7 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex). Ainda assim, o Brasil conseguiu redirecionar os excedentes para outros mercados, encerrando 2025 com US$ 348,3 bilhões exportados — o maior valor da série histórica iniciada em 1997.
Impacto nos setores industrial e agrícola
A derrubada das tarifas originais reduz imediatamente o custo de entrada de insumos, produtos industrializados e itens do agronegócio no mercado americano. Antes da decisão, alguns setores sofriam com taxas adicionais de até 40%.
Ismar Becker, consultor de grandes exportadores brasileiros, avalia que a notícia favorece, no curto prazo, produtos de maior valor agregado. "Enquanto havia grande preocupação com as exportações de café e carne, produtos de maior valor agregado — como móveis, cerâmica e componentes industriais — foram imediatamente beneficiados com a derrubada da medida emergencial, considerada injustificável por não haver ameaça externa iminente", diz.
Outras medidas, porém, seguem em tramitação: a Seção 301, que atinge o setor cerâmico por supostas práticas desleais, e alegações de segurança nacional contra o setor moveleiro. Também permanecem vigentes as tarifas sobre aço e alumínio, impostas com base em legislação distinta.
Mercados reagem e empresas brasileiras se destacam
Nesta sexta-feira, o mercado financeiro reagiu com otimismo à redução das tensões protecionistas. O Ibovespa renovou sua máxima histórica, fechando acima dos 190.000 pontos, enquanto o dólar recuou para R$ 5,18. Ações e moedas de países emergentes avançaram com a percepção de que a decisão limita o poder unilateral de Trump de intervir no comércio global.
A Embraer foi um dos grandes destaques. As ações da companhia aceleraram após a decisão, já que as tarifas americanas impactavam entre 10% e 13% do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). A Taurus Armas também se beneficiou, pois estava sujeita a uma tributação de 50%.
Para Edgar Araújo, diretor-executivo da Azumi Investimentos, o principal ganho para as exportadoras brasileiras é a maior previsibilidade institucional. "Isso reduz o risco de rupturas inesperadas em contratos e cadeias de fornecimento, permitindo planejamento mais consistente", afirma.
A disputa pelo ressarcimento: um contencioso bilionário
A decisão abre ainda outro front: a possibilidade de empresas buscarem a devolução de valores pagos indevidamente ao governo americano. Estima-se que o Tesouro dos EUA possa ter de ressarcir até US$ 175 bilhões a importadores globais.
A advogada tributarista Mary Elbe Queiroz destaca que a decisão reforça os princípios de legalidade e separação de poderes. "Esse precedente é relevante para o comércio internacional, pois sinaliza que medidas fiscais adotadas fora dos limites institucionais podem gerar prejuízos bilionários e insegurança jurídica para empresas e cadeias globais", afirma.
Para empresas brasileiras, porém, o caminho não é automático. Segundo Luís Garcia, do Tax Group, apenas importadoras com operação direta nos EUA ou subsidiárias no país têm legitimidade para ingressar com ações judiciais em solo americano. "O ordenamento americano não costuma reconhecer prejuízos meramente
indiretos, como perda de mercado ou redução de vendas", alerta.
Diplomacia e diversificação são caminhos para o Brasil
A derrubada do tarifaço original traz alívio, mas não encerra a agenda protecionista americana. Para a analista política Sol Azcune, da XP Investimentos, o julgamento redefine os limites institucionais do país. "O efeito transcende o governo atual e aumenta a previsibilidade jurídica no longo prazo", avalia.
A administração Trump, porém, segue buscando meios legais alternativos para manter sua política comercial. "É improvável que a estratégia tarifária de longo prazo de Trump seja prejudicada, desde que a Casa Branca consiga reproduzir a política tarifária por outros meios", diz Matthew Ryan, head de estratégia de mercado da Ebury, empresa global de serviços financeiros.
A Frente Parlamentar da Indústria de Máquinas e Equipamentos analisa o cenário com cautela. A entidade aponta que, embora uma tarifa universal represente um retrocesso em relação ao livre comércio, uma alíquota uniforme de 10% seria menos danosa do que as cobranças punitivas anteriores. Segundo a frente parlamentar, não seria o cenário ideal, mas colocaria o Brasil em pé de igualdade com os demais países — condição mais favorável do que o regime tarifário punitivo do último ano.
Para o governo brasileiro, a prioridade agora é a diplomacia. O encontro previsto para março entre os presidentes Lula e Trump será decisivo para negociar a retirada de tarifas remanescentes, especialmente sobre produtos industrializados.
→ link (acessado 22/02/2026): https://www.gazetadopovo.com.br/economia/reacao-trump-derrubada-tarifaco-afeta-brasil/
[0004] Jornal Gazeta do Povo
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[Hora de Brasília – > 22/02/2026 = 05/12/5786 = 06/10/1447]
< Clichês de IA invadem textos de políticos brasileiros nas redes >
Por Leonardo Desideri, 21/02/2026 às 21:01 - Quando o leitor se deparar, nas redes sociais de parlamentares, com textos de estrutura engessada, cheios de conectivos e contrastes, e com travessões para dar um ar solene, vale desconfiar: não é apenas um parlamentar escrevendo — é um modelo de inteligência artificial trabalhando.
Políticos brasileiros estão recorrendo com frequência às IAs para produzir seus textos na internet. A tendência fica evidente pelo uso frequente de clichês retóricos, estruturas sintáticas previsíveis e as conclusões moralizantes típicas dos modelos de IA.
Algumas postagens reunidas pela Gazeta do Povo praticamente denunciam o uso da tecnologia, em frases como:
"Não há democracia quando divergência vira crime e opinião vira cadeia. O país precisa de pacificação, não de vingança."
"Não era narrativa política. Era aviso. Agora é investigação oficial." "Quando um homem concentra poder, define o rito, acusa, julga e
executa, isso não é democracia — é tirania com verniz jurídico."
"O silêncio também é uma escolha. E a neutralidade, diante do mal, nunca foi virtude." O cientista político Felipe Rodrigues, que oferece consultoria e formação em inteligência artificial para políticos e equipes de comunicação, explica que alguns padrões tornam claro o uso de IA.
O primeiro deles, presente em todos os exemplos citados, é a estrutura de contraste: "É um recurso retórico que está superexplorado: ‘não apenas X, mas também Y’; ‘não é só isso, mas também aquilo’; ‘não se trata apenas disso, é isso’. ‘Mais do que tal, é tal coisa’. Isso tem sido muito usado”, diz.
Outro sinal é a presença excessiva de conectivos e uma estrutura de texto muito previsível, em blocos. "Vem um parágrafo com duas linhas, outro com quatro linhas, outro com quatro e outro com duas. Ou frases com sujeito, verbo, predicado, complemento… sujeito, verbo, predicado, complemento… Essas estruturas bem formatadinhas, que não têm muita quebra, que não têm muito toque pessoal, que são muito genéricas, são evidências de um texto de IA."
Isso se deve, explica ele, a "uma questão probabilística". "A IA vai reproduzir padrões. Se a gente for analisar probabilisticamente, em termos percentuais, a probabilidade de que alguém goste de um texto ou de que um texto seja considerado bem formatado justamente porque é um clichê, é maior." Rodrigues resume algumas das marcas principais das IAs em textos de políticos nos seguintes pontos:
Obsessão com contrastes: fórmulas do tipo “não é apenas X — é Y”.
Tiques lexicais: aberturas como “de modo geral” e conclusões com expressões como “em síntese” ou “em suma”, mesmo em textos curtos.
Falta de voz individual: pouco humor, ironia, idiossincrasias ou contexto pessoal.
Estrutura engessada: parágrafos de tamanho padronizado e conectivos previsíveis em excesso.
Generalidades e clichês moralizantes: lugares comuns e abstrações com lição de moral genérica no fim.
Sinais de padrão visual: travessões longos, subtítulos, estruturas de tópicos e emojis em excesso.
Todas essas características são marcas do que se tem chamado em inglês de "AI slop" – lixo de IA ou IA desleixada, em tradução livre –, isto é, conteúdos de inteligência artificial de baixa qualidade gerados de forma preguiçosa.
Falta de treinamento da IA e uso voltado para poupar trabalho são receita para gerar clichês
Evitar os lugares-comuns de IA é possível, mas é preciso treinar os modelos, alimentando-os com a personalidade e os padrões de fala dos políticos — algo que costuma dar trabalho. Para Rodrigues, essa preguiça na etapa de calibração do modelo explica por que os textos acabam desembocando em clichês. O problema se agrava porque a IA, no dia a dia dos gabinetes,
virou um atalho para facilitar o trabalho, e não para elevar a sua qualidade. O produto final, com isso, fica mais genérico.
"Muita gente usa a IA como muleta, para facilitar, para deixar o trabalho mais fácil, e não necessariamente para deixar o trabalho melhor. Um uso virtuoso da IA é usá-la não só para facilitar o trabalho, mas também, e principalmente, para torná-lo melhor. Mas não é o que o pessoal tem feito. Muitos assessores trabalham sozinhos, precisam escrever coisas em larga escala e usam a IA como muleta, como um assistente genérico", diz.
Ele não vê um grande problema ético nessa tendência, mas considera que a eficácia da comunicação se perde. "O que o político mais precisa é ocupar um lugar na cabeça do eleitor ou do cidadão. Se você se comunica como todo mundo, com um padrão muito genérico, você não tem identidade nenhuma. E isso solapa o seu posicionamento na cabeça do eleitor", comenta.
Não por acaso, a principal preocupação que políticos e seus assessores têm trazido para ele é justamente a de como fazer textos que não tenham cara de IA. Eleições devem aumentar uso de inteligência artificial em textos de políticos, e até debates devem ser impactados
À medida que as eleições se aproximarem, o desejo de publicar em larga escala e de forma mais rápida tenderá a crescer. Rodrigues prevê, com isso, um aumento de postagens genéricas produzidas por IA nas redes de políticos.
Na visão dele, isso pode empobrecer as discussões no período eleitoral, principalmente porque textos gerados por IA sem o treinamento devido costumam ter conclusões genéricas e vazias, com truques retóricos que se encaixariam em qualquer contexto.
Rodrigues também aposta que a IA deve começar a aparecer, de forma indireta, até em debates eleitorais ao vivo, como ferramenta de bastidor para acelerar checagens e preparar textos com respostas a questões suscitadas por adversários.
"A checagem de fatos é mais rápida. Você tem um motor de IA funcionando com uma busca muito ampla, com uma precisão muito grande. Você consegue rebater inclusive com fontes um dado que foi citado errado, por exemplo", explica. "Vamos imaginar que há um tempo antes de uma réplica, ou um intervalo um pouquinho maior… Um assessor pode muito bem entregar essa resposta para o candidato, formatar a resposta para que ele rebata algum dado, reforce algum argumento… Eu acho que isso é bem possível de ser usado e apontaria até como uma tendência", acrescenta.
→ link (acessado 12/02/2026): https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/cliches-de-ia-invadem-textos-de-politicos-brasileiros-nas-redes/

