Programação de notícias - Semana 3
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3.1.1 – Português [Machado de Assis]
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[Machado de Assis]
Ressurreição
Capítulo I
Viana era um homem essencialmente pacato com a mania de parecer libertino, mania que lhe resultava da freqüência de alguns rapazes. Era casto por princípio e temperamento. Tinha a libertinagem do espírito, não a das ações. Fazia o seu epigrama contra as reputações duvidosas, mas não era capaz de perder nenhuma. E, todavia, teria um secreto prazer se o acusassem de algum delito amoroso, e não defenderia com extremo calor a sua inocência, contradição que parece algum tanto absurda, mas que era natural.
Como Félix não lhe animasse a conversa no terreno em que ele a pôs, Viana entrou a elogiar-lhe os vinhos.
— Onde acha o senhor vinhos tão bons? perguntou depois de esvaziar um cálice.
— Na minha algibeira.
— Tem razão; o dinheiro compra tudo, inclusive os bons vinhos.
A resposta de Félix foi um sorriso ambíguo, que podia ser benevolente ou malévolo, mas que pareceu não produzir impressão no hóspede. Viana era um parasita consumado, cujo estômago tinha mais capacidade que preconceitos, menos sensibilidade que disposições. Não se suponha, porém, que a pobreza o obrigasse ao ofício; possuía alguma coisa que herdara da mãe, e conservara religiosamente intacto, tendo até então vivido do rendimento de um emprego de que pedira demissão por motivo de dissidência com o seu chefe. Mas estes contrastes entre a fortuna e o caráter não são raros. Viana era um exemplo disso. Nasceu parasita como outros nascem anões. Era parasita por direito divino.
Não me parece provável que houvesse lido Sá de Miranda [1]; todavia, punha em prática aquela máxima de um personagem do poeta: "boa cara, bom barrete e boas palavras, custam pouco e valem muito..."
Chamando-lhe parasita não aludo só à circunstância de exercer a vocação gastronômica nas casas alheias. Viana era também o parasita da consideração e da amizade, o intruso polido e alegre, que, à força de arte e obstinação, conseguia tornar-se aceitável e querido, onde a princípio era recebido com tédio e frieza, um desses homens metediços e dobradiços que vão a toda a parte e conhecem todas as pessoas, "boa cara, bom barrete, boas palavras".
Parecendo-lhe que Félix estaria preocupado, Viana entendeu não dizer palavra antes de achar ocasião oportuna. Veio o café, e o primeiro que rompeu o silêncio foi o doutor. Viana aproveitou habilmente o ensejo para reatar o fio dos louvores, tão asperamente quebrado pelo dono da casa. Não lhe elogiou desta vez os vinhos, mas as qualidades pessoais; afirmou-lhe que ninguém era mais querido na casa do Coronel Morais, e que ele próprio não se recordava de pessoa a quem mais estimasse neste mundo.”
obs [1]: Francisco de Sá de Miranda foi um poeta português do seculo XV e XVI.
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[0001] DW [08/03/2026=19/12/5786=20/10/1447]
<Subida do preço do petróleo pode trazer ganhos para Angola>
Cláudia Marques - 03/03/20263 de março de 2026
O conflito no Médio Oriente fez disparar o preço do petróleo, afetando o Estreito de Ormuz. O economista Nataniel Fernandes diz que Angola poderá beneficiar com um alívio fiscal, mas alerta que ganhos serão temporários. O preço global do petróleo disparou nas últimas 48 horas devido ao conflito no Médio Oriente. Com a tensão na região, está comprometido o transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do consumo mundial de petróleo.
Em entrevista à DW, o economista Nataniel Fernandes diz que "o balanço fiscal para Angola com a subida do preço do petróleo é sempre positiva", sendo o crude o "motor" da economia angolana. O economista acredita que a atual conjuntura terá um "impacto de alívio fiscal" para o país, mas sublinha que eventuais picos nas receitas são "temporários".
DW África: Que impacto pode ter para Angola o atual conflito?
Nataniel Fernandes (NF): O facto de existir essa guerra Irão-Estados Unidos-Israel, com um risco que envolve 20% do transporte de petróleo mundial, os preços sobem, isso é claro, e já está a acontecer, e isso tem um impacto fiscal para Angola. Aumentam divisas, porque o preço subiu, aumentam impostos relativos à produção petrolífera, também aumenta o preço dos refinados que vamos comprar. No entanto, o balanço fiscal para Angola com a subida do preço de petróleo é sempre positivo, porque o petróleo é o motor da nossa economia.
DW África: De que forma Angola, enquanto país produtor, pode beneficiar desta subida do preço do petróleo? Pode ter um impacto mais estrutural, mais a longo prazo, como o aumento das receitas fiscais e o pagamento da dívida pública, por exemplo?
NF: Aí entramos na parte que é essencial e que é, de facto, estratégica. Nós vamos ter esse acréscimo de receitas fiscais, vamos ter esse acréscimo de reservas líquidas estrangeiras em moeda estrangeira, em moeda forte, e precisamos saber exatamente o que vamos fazer com esse acréscimo de receitas, é isso que vai fazer a diferença no longo prazo para Angola ou não. Em primeiro lugar, precisamos tratar isso como um aumento temporário, porque a guerra vai passar. Sempre que existem essas questões de guerra, as receitas têm um pico, mas logo depois do pico elas voltam à normalidade.
E o que vamos fazer com esse pico de receitas é que vai definir se vão ser benéficas para nós ou se vai permanecer tudo igual. É importante guardar uma boa parte dessas receitas, provisioná-las para os momentos em que haverá momentos de baixa abaixo das nossas expectativas, isso é fundamental fazer. Outro ponto essencial é que nós precisamos diminuir o nosso serviço da dívida, especialmente em moeda estrangeira, escolher os contratos de dívida que são piores e nos desfazermos delas. Outro ponto importante é fazermos os investimentos aqui dentro, investimentos em produção, na indústria, na agricultura, acho que são os vetores que nós precisamos olhar e implementar.
DW África: Dados mostram que a produção de petróleo em Angola tem vindo a cair, ficando em média abaixo de um milhão de barris por dia. Angola pode aproveitar este embalo, tendo em conta esta limitação, ou pode ser um problema?
NF: Eu acredito que os nossos níveis de produção podem vir a melhorar, não imediatamente, acho que não vamos aproveitar esse boom do preço, mas foram descobertas novas reservas. Temos de ter um pouco mais de soberania em relação a isso, termos capital financeiro angolano, tentar angariar capital financeiro interno para se fazer prospeção e para se fazer produção. Temos a limitação e dependemos da intenção e da viabilidade que outros veem no investimento em prospeção e produção para Angola.
DW África: Do ponto de vista social, os angolanos podem beneficiar ou, pelo contrário, podem vir dias difíceis, como, por exemplo, o aumento do custo de vida?
NF: Bom, se é receita temporária, não podemos expandir despesas permanentes, não seria prudente. Nesse caso, eu acredito que a população vai beneficiar, sem dúvida, e o kwanza é capaz de se apreciar relativamente a outras moedas ou, pelo menos, termos um espaço muito maior de estabilidade cambial. Se aplicarmos parte dessas receitas em investimento de capital humano, teremos aproveitado algo para o longo prazo que pode vir a criar oportunidades, sejam bolsas de estudo ou melhorias de infraestrutura ligada à formação das pessoas. É o que se pode fazer a nível de investimentos sociais.
→ link (acessado dia 08/03/2026): https://www.dw.com/pt-002/médio-oriente-subida-do-preço-do-petróleo-pode-trazer-ganhos-para-angola/a-76193087
[0002] DW [08/03/2026=19/12/5786=20/10/1447]
<Cabinda: Professores em greve exigem pagamento de subsídios>
Redação DW África, 04/03/20264 de março de 2026 -
A greve dos professores na província de Cabinda está a paralisar escolas em oito municípios, deixando milhares de alunos sem aulas. Os docentes exigem o pagamento de subsídios de isolamento e retroativos.
A paralisação afeta oito dos dez dos municípios da província de Cabinda. A decisão foi tomada durante uma assembleia de trabalhadores dos municípios visados e surge na sequência de um caderno reivindicativo remetido ao governo provincial a 11 de dezembro passado.
Os professores reivindicam o pagamento de subsídios de isolamento em zonas recônditas, além do pagamento dos respetivos retroativos aos professores que exercem funções em áreas de difícil acesso.
A paralisação abrange todas as escolas públicas e comparticipadas do ensino pré-escolar, primário e secundário nos municípios visados. Em declarações à DW, Afonso Baiua, do Sindicato Nacional dos Professores Angolanos (SINPROF), diz tratar-se de uma medida extrema, adotada após sucessivas tentativas de diálogo sem resultados concretos.
"Já demos avanços, várias tentativas de diálogo, por isso, chegamos até ao ponto do caderno reivindicativo e a lei da greve prevê que quando uma entidade sindical entrega o caderno à entidade empregadora, esta deve responder por escrito no prazo de cinco dias. Mas passaram mais de 60 dias. Nesta realidade, os trabalhadores são livres de declarar a greve."
O professor Luís André Quivanga Lenda, que aderiu à greve, fala num direito que não foi cumprido. "Infelizmente até agora nada. A ministra do MAPTSS veio ao público dizer que seria pago com retroativos e de lá para cá nada."
A paralisação deverá estender-se até à próxima sexta-feira (06.03), podendo afetar significativamente o normal funcionamento das atividades letivas nas zonas abrangida dos municípios de Ngoio, Liambo, Tando-Zinze, Massabi, Necuto, Buco-Zau, Belize e Miconje.
Pais e alunos reagem à greve
José Albino é estudante do complexo escolar de PUNIV e diz o que sente relativamente à greve."Isso vai prejudicar muitos os alunos devido o atraso da matérias e muitos destes vão perder a dinâmica, no entanto é necessário uma reação para que o governo possa tomar uma decisão."
O encarregado de educação Félix Paca fala em consequências à vista com esta paralisação. "Vai atrapalhar obviamente porque os alunos vão ficar sem aulas e os professores verão também seus programas interrompidos e quando chegar as provas fica tudo mais complicado."
A greve aprovada não deverá ser interrompida sem que haja assinatura de um acordo formal que garanta a execução efetiva do pagamento dos referidos subsídios em todas as escolas dos municípios beneficiados.
"Fizemos os ofícios e remetemos à delegação das Finanças e esta por sua vez está a tratar com ministério de tutela, portanto nós temos estado a tratar com o delegado das Finanças e ele nos garante sempre a situação está tratar ao nível do ministério e que tenhamos calma", afirmou o secretário provincial da Educação, Boaventura Macaia.
A greve é interpolada e a 1.º fase vai de 2 a 6 de março, a 2.º fase de 17 a 24 de março, a 3.° fase de 20 a 24 de abril, a 4.° fase de 18 a 24 de maio, a 5.° fase de 9 a 19 de julho e abrange oito dos dez municípios da província.
Voluntários ajudam a alfabetizar crianças em Angola
→ link (acessado dia 08/03/2026): https://www.dw.com/pt-002/professores-de-cabinda-em-greve-exigem-subsídios-e-retroativos/a-76207684
[0003]DW [08/03/2026=19/12/5786=20/10/1447]
<Exploração de recursos ameaça rios no sul de Angola>
Adolfo Guerra (em Menongue), 17/02/202617 de fevereiro de 2026
A exploração de recursos e o abate de árvores estão a degradar os rios do sul de Angola. Ambientalistas alertam para leis desajustadas, falta de fiscalização e riscos crescentes de escassez de água para as comunidades.
O rio Cunene está a mudar. Há muitos anos que o ambientalista Jerónimo António observa essa transformação num dos recursos mais importantes para três províncias do sul de Angola: a Huíla, Namibe e Cunene.
"É cada vez mais visível a agressão ao ecossistema circundante. A partir da Matala, o rio entra numa região semiárida; o ecossistema que há milhares de anos foi construído pelo próprio rio – pequenos matagais - tende a desaparecer. O ideal seria que esses matagais fossem preservados num raio de 50 a 10 quilómetros."
Abate de árvores e escavações intensificam os danos
Jerónimo António já escreveu vários estudos sobre os recursos hidrográficos do país. Ambientalistas como ele ou António Garripete têm alertado para os danos causados pela exploração contínua de recursos na margem dos rios e pelo abate de árvores para o fabrico de carvão, lenha doméstica e construção de cabanas.
"Nas zonas rurais, o derrube de árvores é uma prática constante, porque as pessoas não têm outros incentivos. A população está numa pobreza extrema", explica Garripete. "Quando as comunidades se encontram a este nível, fazem o que podem para sobreviver."
Um dos maiores desafios está na própria legislação ambiental angolana. Embora existam normas que preveem taxas e multas, muitas foram elaboradas sem considerar a realidade das comunidades locais, afirma António Garripete.
Falta de fiscalização
Grande parte da legislação é elaborada em Luanda, distante da realidade de regiões como o Cunene ou o Cuando Cubango, o que resultaria em leis desalinhadas com as necessidades locais.
"O legislador vive em Luanda e não conhece o Cunene na sua plenitude, não conhece as populações do Cunene, como é que vivem, ou no Cuando Cubango ou em qualquer outra parte do país", afirma Garripete.
A ausência de fiscalização ambiental consistente agrava o cenário:
"Há rios que não têm água em condições durante grande parte do ano, por causa das escavações em busca do ouro. Não há uma única fiscalização ambiental há mais de 15 anos", refere Jerónimo António.
A DW tentou obter uma reação do diretor provincial do Ambiente no Cunene, mas não foi possível estabelecer contacto.
Ambientalistas pedem legislação participativa
Para os ambientalistas, a solução passa por reforçar a fiscalização e divulgar melhor as leis nas comunidades.
"Isto só é possível se for criada uma legislação ambiental com a participação de investigadores e ambientalistas", alerta Jerónimo António.
O ambientalista considera que, sem esse envolvimento, a redução dos recursos hídricos poderá ter consequências sérias, incluindo riscos para a estabilidade social.
→ link (acessado dia 08/03/2026): https://www.dw.com/pt-002/exploração-de-recursos-ameaça-rios-no-sul-de-angola/a-76009908
[0004] DW
[08/03/2026=19/12/5786=20/10/1447]
<"Cessar-fogo de João Lourenço pode não ser aceite pelo M23">
Braima Darame, 17/02/202617 de fevereiro de 2026
Angola propõe cessar-fogo entre o Governo da RDC e o M23 [2] para quarta-feira. Kinshasa aceita o princípio, mas sem confirmar a data. O M23 não reage. Há condições reais para a proposta de João Lourenço avançar?
Angola propôs que o cessar-fogo entre o Governo da República Democrática do Congo (RDC) e o M23 entre em vigor ao meio-dia de 18 de fevereiro. A Presidência angolana aguarda agora a confirmação oficial das partes.
A iniciativa resulta de uma reunião em Luanda com os Presidentes de Angola, do Togo e da RDC, e com o ex-Presidente nigeriano Olusegun Obasanjo. Luanda afirma ainda que o anúncio sobre o diálogo inter-congolês será feito oportunamente.
Kinshasa afirma que aceitou "o princípio" de uma trégua, mas sem confirmar a data, enquanto o M23, apoiado pelo Ruanda, acusa o Governo congolês de manipular o processo. A região enfrenta violência há mais de três décadas, com a violação de vários cessar-fogo desde o regresso do M23, em 2021.
Há realmente condições para um cessar-fogo nas próximas horas? Foi o que perguntámos ao especialista angolano Kinkinamo Tuasamba.
DW África: Com esta proposta de Angola, como avalia o cessar-fogo anunciado para 18 de fevereiro? Há condições reais para que tanto o Governo da RDC como o M23 cumpram essa data?
Kinkinamo Tuasamba (KT): A minha avaliação é cautelosa. Angola já desempenhou este papel de mediador no processo entre o M23 e o Governo congolês, por isso não é novidade vermos novamente uma tentativa de diplomacia ativa por parte de Luanda. Angola continua a ser o país africano que melhor conhece este conflito, devido à sua proximidade política com Kinshasa e ao envolvimento direto do Presidente João Lourenço.
Do lado do Governo congolês, é provável que a proposta seja aceite, tendo em conta a relação estreita com Angola. No entanto, do lado do M23 a situação é mais incerta. Até agora, o movimento não fez qualquer pronunciamento público a confirmar se aceita ou não a trégua.
Faltam, portanto, elementos essenciais para garantir que o cessar-fogo será assumido pelas duas partes. O Governo congolês pode concordar, mas não podemos dizer o mesmo em relação ao M23, com quem não houve contacto direto suficiente neste processo.
DW África: Depois da ofensiva do M23 em Uvira e noutras zonas estratégicas, acredita que o movimento rebelde está disposto a uma solução política ou apenas a ganhar tempo e vantagem territorial com o cessar-fogo?
KT: Essa é uma questão muito pertinente. O M23 tem aplicado uma estratégia bastante clara ao longo dos anos. O próprio líder do movimento já admitiu, em entrevistas antigas, que só aceita negociações quando percebe que a sua logística militar está enfraquecida. Ou seja, utiliza o cessar-fogo para ganhar tempo.
Quando sente que a sua capacidade logística - seja militar, alimentar, ou de abastecimento - está a diminuir, o M23 aceita tréguas para se reorganizar e reabastecer com apoio externo. Quando volta a estar operacionalmente forte, retoma as operações militares.
Neste momento, o movimento está a ganhar terreno no Kivu do Norte e do Sul e encontra-se numa posição vantajosa. Até o espaço aéreo foi afetado, obrigando a recuos da ONU. Por isso, não surpreende que ainda não tenha confirmado a trégua proposta para dia 18. Enquanto estiver a conquistar posições, dificilmente aceitará um cessar-fogo genuíno.
O Exército congolês é frágil e depende de grupos civis armados, como os Wazalendo, para reforçar a linha da frente, o que acentua o desequilíbrio no terreno, algo que o M23 conhece bem.
DW África: O envolvimento crescente de atores externos, como os Estados Unidos e o Qatar, através do Acordo de Washington e do Acordo-Quadro de Doha, reforça ou fragiliza os esforços africanos para uma solução duradoura?
KT: Fragiliza. Angola tem sido um ator fundamental neste processo, e quando a comunidade internacional passa a valorizar mais os acordos celebrados em Washington ou Doha do que os esforços africanos, o espaço diplomático da região fica reduzido.
O cessar-fogo anunciado em Washington, na presença de Donald Trump, só foi possível graças ao processo iniciado em Luanda. No entanto, durante a assinatura desse acordo, o Presidente ruandês Paul Kagame chegou a desvalorizar o papel de Angola, algo corrigido apenas mais tarde, quando Trump reconheceu publicamente o contributo de João Lourenço, tanto como Presidente de Angola como presidente da União Africana.
Assinar acordos é simples; aplicá-los é difícil. Pouco depois do acordo de Washington, houve novo agravamento no terreno. Isto mostra que, quando os esforços africanos são desvalorizados, a mediação perde coerência.
A atuação dos líderes africanos, e de Angola em particular, fica fragilizada quando os acordos externos são tratados como mais legítimos.
DW África: O que está realmente em jogo para Angola ao assumir novamente o protagonismo na mediação do conflito?
KT: Angola deve manter esse papel, não apenas por responsabilidade diplomática, mas sobretudo por razões de segurança nacional.
A RDC partilha fronteiras com nove países, e a fronteira com Angola é extensa e sensível. Qualquer instabilidade no Congo pode facilmente transbordar para território angolano.
Angola funciona como uma zona-tampão. Se o conflito escalar, é natural que haja fluxo de refugiados, o que é legítimo segundo a lei internacional, mas também existe o risco de grupos armados tentarem atravessar a fronteira.
Além disso, Angola foi mandatada para conduzir o diálogo inter-congolês. Contudo, esse processo só terá credibilidade se incluir o M23; excluí-lo seria condenar o diálogo ao fracasso.
Assim, o papel de Angola é duplo: Mediar para estabilizar a região e proteger o seu próprio território. Quanto mais tempo conseguir manter estabilidade na fronteira, melhor poderá gerir as implicações deste conflito.
obs. [2] conforme informações do Googles [acessado dia 22/03/2026] "O Movimento 23 de Março (M23) é um grupo rebelde liderado por tutsis que atua no leste da República Democrática do Congo (RDC), gerando uma grave crise humanitária e de segurança" os tutsis é uma etnia predominante de Ruanda, onde em anos passados ocorreu uma sangrenta guerra civil com os hútus (etnia rival).
→ link (acessado dia 08/03/2026): https://www.dw.com/pt-002/cessarfogo-de-joão-lourenço-pode-não-ser-aceite-pelo-m23/a-76004007
